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  • Paris celebra legado de Sebastião Salgado com exposição monumental reunindo mais de 200 fotos
    Feb 20 2026

    Paris homenageia o legado do fotógrafo Sebastião Salgado com uma grande exposição na Prefeitura de Paris, aberta ao público a partir deste sábado (21). Com curadoria e cenografia de sua companheira de vida, Lélia Wanick Salgado, a mostra reúne cerca de 200 obras, a maioria vinda do acervo da Maison Européenne de la Photographie (MEP), de Paris.

    Patrícia Moribe, em Paris

    O casal se instalou em Paris em 1969, fugindo da ditadura militar brasileira. Economista de formação, a fotografia surgiu no percurso de Sebastião Salgado por acaso através de Lélia, que comprou uma câmera em Paris para seus estudos de arquitetura.

    "Ele inclusive nunca tinha feito fotografia. Fui eu que comprei a máquina aqui, porque eu estudava arquitetura e precisava fazer fotos. E então foi aí que ele pegou uma câmera pela primeira vez e gostou tanto que roubou minha câmera! Aí, quando eu queria sair para fazer foto, ele dizia: 'Não, eu saio com você, eu faço com você'", conta, rindo.

    A trajetória profissional de Salgado se consolidou na sua passagem por agências de renome mundial, como Sygma, Gamma e Magnum Photos. O fotojornalista viajava o mundo em coberturas e flagrou, inclusive, a tentativa de assassinato do então presidente americano Ronald Reagan, em 1981.

    Trajetória

    Lélia lembra que os primeiros anos exigiram muito esforço e auxílio mútuo, numa época em que ela percorria as redações de Paris em uma mobilete para entregar os filmes do marido. “A vida de um fotógrafo é muito difícil antes de ele se afirmar como profissional”, explica. Em 1994, o casal fundou sua própria agência, a Amazonas Images, que se tornou o quartel-general do trabalho do artista.

    A exposição também destaca o compromisso ético e ambiental que marca a obra de Salgado.

    Lélia ressalta que o objetivo do marido era sempre desenvolver temas com um propósito claro, como no caso dos fluxos migratórios: "Ninguém sai de sua casa porque quer. Todo mundo sai porque tem um objetivo, tem uma dificuldade... Então, essa é a mensagem."

    Da mesma forma, projetos como Gênesis e Amazônia foram criados como alertas para a preservação, relata a curadora.

    Instituto Terra

    O legado pela defesa do meio ambiente do casal se materializa de forma prática no Instituto Terra, um projeto de reflorestamento na Mata Atlântica, atualmente administrado pelo filho mais velho, Juliano. A iniciativa começou com uma área desmatada herdada por Salgado, que foi totalmente resgatada e segue se expandindo. Lélia comemora o crescimento impressionante do projeto, de 3.500 árvores plantadas inicialmente para 30 milhões em breve.

    A exposição em Paris encerra esse percurso de forma íntima, apresentando as obras do filho caçula, Rodrigo, que tem síndrome de Down, e um vídeo com as últimas imagens capturadas por Sebastião no Instituto Terra, em dezembro de 2023.

    A visita à homenagem de Paris a Sebastião Salgado é gratuita, mas a reserva é obrigatória pelo site oficial. A exposição fica em cartaz até 30 de maio de 2026.

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  • Carnaval de rua de Paris é cancelado, mas iniciativas ganham força popular nos subúrbios
    Feb 13 2026

    Este ano, as ruas de Paris permanecerão em silêncio durante o período carnavalesco, após o cancelamento definitivo do desfile de rua que vinha sendo organizado pela associação Droit à la Culture (Direito à Cultura), por falta de recursos financeiros e voluntários. Mas o espírito carnavalesco se transforma, virando resistência na periferia ou uma grande festa de amor à beira do Sena.

    Patrícia Moribe, da RFI em Paris

    O carnaval de rua em Paris tem suas raízes no século 11, com festejos intermitentes. Abalados pelas guerras, os festejos foram interrompidos na década de 1950, sendo retomados no final do século 20, até a última edição, em 2025.

    Adriana Facina, antropóloga e pesquisadora do Museu Nacional, professora convidada do IHEAL (Instituto de Altos Estudos da América Latina), em Paris, participou de um estudo comparativo entre 2024 e 2026 sobre as conexões entre coletivos artísticos das periferias do Rio de Janeiro e de Paris, especificamente em Saint-Denis e Stains.

    Em parceria com a historiadora Silvia Capanema, da Universidade Paris Nord, a pesquisa investigou grupos como o Loucura Suburbana, no Rio, e o Action Créole, que organiza o carnaval de Stains (a 25 quilômetros de Paris), para entender como a cultura supre a ausência de organizações tradicionais.

    "A gente entende esses coletivos como novos tipos de movimentos sociais contemporâneos, num contexto de enfraquecimento de sindicatos e de formas de partidos populares", disse, em que a arte serve para "produzir uma reivindicação política em seus territórios, no sentido de garantir direitos básicos para a população das camadas populares".

    Ancestralidade

    Essa profundidade política e social do ritmo é corroborada pelas pesquisas do musicólogo Lameck, baseado em Paris, que estuda a ancestralidade da música afro-brasileira. Para ele, é essencial entender que "o samba nasce durante a escravidão" e que, em sua origem, não era um ritmo puramente alegre, mas sim um "grito de lamento" nascido no cativeiro.

    Lameck destaca que a palavra samba significa "reza" no dialeto kimbundo e que a dança e a percussão são linguagens de comunicação para momentos de introspecção e espiritualidade, e não apenas para a festividade vista pelo olhar externo.

    A pesquisa dos subúrbios do Rio e Paris virou exposição, "Os vagalumes: arte, cultura e esperança nas periferias urbanas do Rio e Paris", em cartaz até 13 de março, no campus da Universidade Paris Nord.

    Amor sem pressão no Sena

    Enquanto a periferia se organiza politicamente, o centro de Paris verá o Carnaval ocupar o rio Sena por meio do Baile Bom Brazilian Kiss, no barco Le Mazette. A agitadora cultural Rosane Mazzer, com mais de 30 anos de atuação na França, decidiu aproveitar a coincidência da data com o Dia dos Namorados local (Saint-Valentin) para propor uma subversão: "decidimos inventar uma festa de amor aberto aos amigos e tirar essa pressão de Saint-Valentin, que é uma coisa meio chata. Vamos fazer uma amação geral".

    As atrações do Baile Bom prometem uma imersão completa na cultura brasileira contemporânea. A programação inclui aulas de samba com Wellington Lopes, a interferência percussiva de 15 integrantes da Batalá Batucada e vários DJs.

    Para quem gosta de desfile na rua, a prefeitura de Paris confirmou para o próximo dia 5 de julho mais uma edição do Carnaval Tropical de Paris, na avenida Champs-Elysées, um evento que destaca grupos de música e danças tradicionais principalmente das Antilhas (Guadalupe, Martinica, Reunião e Guiana). No ano passado, marcado pela Temporada França-Brasil, o carnaval brasileiro foi o convidado de honra.

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  • Documentário de Felipe Casanova ganha prêmio em festival francês; outros curtas brasileiros concorrem
    Feb 6 2026
    O Festival de Clermont-Ferrand, vitrine mundial da produção de curtas-metragens, entra na sua reta final com a divulgação dos primeiros prêmios concedidos por parceiros do evento. Entre os títulos já anunciados, o curta “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, do cineasta suíço-brasileiro Felipe Casanova, foi escolhido como melhor documentário pelo júri da plataforma Tënk. O filme se organiza em torno da carta de uma mãe ao filho morto, ambientada durante o Carnaval carioca, e entrelaça luto, violência policial de Estado e celebração popular. Adriana Moysés, enviada especial a Clermont-Ferrand Nas seleções oficiais do festival, “O Rio de Janeiro Continua Lindo” concorre na mostra Labo, dedicada às obras mais inovadoras. Outros três curtas brasileiros estão na disputa: “Frutafizz”, de Kauan Okuma Bueno, selecionado para a competição internacional; “Mira”, de Daniella Saba, e “Samba Infinito”, de Leonardo Martinelli, ambos na mostra de filmes com produção francesa. Os vencedores serão anunciados neste sábado (7). Casanova mudou-se para a Suíça com a família quando tinha 9 anos e estudou cinema na Bélgica. Ele contou à RFI que o filme nasceu de uma intuição inicial e de uma decisão simples: filmar o Carnaval carioca em Super 8. “Para ser sincero, eu não sabia que ia ser um filme sobre violência policial. É o primeiro filme que eu faço no Brasil. Eu tinha vontade de ir com a câmera e filmar e decidi que ia ser durante o Carnaval.” O ponto de partida dramático – a carta de uma mãe para um filho ausente – já estava nos esboços iniciais. “Eu tinha uma intuição de um filme-carta, de uma mãe que trabalha durante o Carnaval e escreve para o filho que talvez esteja festejando num bloco que a gente nunca vê. Já tinha essa ideia de ausência. Eu sabia que ia ser uma coisa social, mas não fazia ideia que ia ser sobre violência policial.” Do filme-carta ao impacto da história de Bruna A virada surgiu quando o diretor encontrou as ambulantes Ilma e Bruna. “A Bruna me contou a história dela, falando que perdeu o filho assassinado em 2018 pela Polícia Militar. Fiquei muito tocado e chocado. Eu sabia que isso acontecia sempre, mas nunca tinha conversado com uma mãe que perdeu o filho assim”, relata o cineasta. Bruna mostrou ao diretor as cartas que escrevia ao filho, assim como de outras mães, e a roupa que usou no desfile da Portela em 2024, que convidou 16 mães que perderam seus filhos para “a violência de Estado”. Filmado em Super 8 e construído como documentário, o curta articula presente e passado ao trabalhar com imagens de arquivo da ditadura militar. Para Casanova, essa ponte histórica é central: “É uma situação que é de hoje, mas também é de ontem, de 20, 30, 100 anos atrás. Uma mãe preta que perde seu filho é uma coisa que está presente há muito tempo.” O uso do arquivo, explica, dá forma a uma “carta atemporal” e convoca “os fantasmas da nossa sociedade”: “Essa violência policial de hoje acho que é uma herança que vem da ditadura militar.” O Carnaval aparece como contraponto simbólico. “O Carnaval também tem todas essas camadas da história brasileira – da colonização, do tempo dos escravos –, ele carrega tudo isso. O samba vem da tristeza”, lembra o diretor, citando Vinícius de Moraes. “Um bom samba é uma forma de oração. Acho que o samba traz essa energia, essa luta. Vamos transformar isso em outra coisa, e o filme carrega essa identidade.” “Frutafizz” na competição internacional Em seu primeiro curta-metragem profissional, “Frutafizz”, Kauan Okuma Bueno narra a viagem de dois colegas pelo interior de São Paulo, explorando memória e pertencimento. Selecionado para a competição internacional de Clermont-Ferrand após vencer o Kikito de melhor curta em Gramado, o filme chega ao público francês carregado da emoção do diretor. “Me sinto muito lisonjeado, não só na parte de distribuição, mas desde sempre – como foi feito esse projeto. Significa para mim trazer um recorte da cultura brasileira para pessoas que não têm tanto acesso ou que não consomem tanto do Brasil.” Kauan destaca o caráter coletivo da obra. “É um filme que foi se moldando com o processo, a partir da memória de todo mundo que estava ali – amigos, veteranos, professores. Gosto de parafrasear o Adirley Queiroz: ‘Da nossa memória, fabulamos nós mesmos’. O filme abraça muito essa ideia.” O título surge de um refrigerante da infância do protagonista. “Ele não sabe dizer o gosto porque o gosto não importa de fato. O que importa é o que aquilo representa. Nós somos feitos de histórias incompletas e a gente tenta preencher isso com sentimento e valor.” Anthony França Brown, roteirista do curta, reforça o caráter plural da criação: “Hoje em dia, para você fazer um filme, tem que estar envolvido em todas as áreas. São recortes de ...
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  • Martin Parr: exposição de fotógrafo inglês em Paris mostra turismo desenfreado e hiperconsumismo
    Feb 4 2026

    A exposição “Global Warning”, em exibição no Jeu de Paume, em Paris, até maio de 2026, oferece uma perspectiva analítica e satírica ao mesmo tempo sobre a obra de Martin Parr, que morreu em 5 de dezembro do ano passado, aos 73 anos. O título da mostra faz alusão ao termo aquecimento global (global warming, em inglês), para sinalizar um alerta sobre o estado do mundo contemporâneo.

    Patrícia Moribe, da RFI em Paris

    O curador da mostra e diretor da instituição parisiense, Quentin Bajac, explicou à RFI que o foco da mostra recai sobre os "disfuncionamentos de nossas sociedades", que estão na origem de muitos desequilíbrios climáticos.

    “Propus o tema a Martin Parr há uns dois anos e ele aceitou na hora”, conta Quentin Bajac. “Ele estava bastante empolgado com a ideia de fazer uma exposição talvez um pouco mais séria sobre o trabalho dele do que o habitual. E então, trabalhamos juntos, fizemos a seleção das obras juntos. Depois, ele me deixou cuidar de toda a parte de cenografia da exposição, pesquisa de autores para o catálogo etc. Mas durante um ano e meio, a gente se comunicou regularmente sobre o projeto.”

    “Martin trabalhou sobre temas sérios e, em particular, sobre os disfuncionamentos, eu diria, de nossas sociedades ocidentais, Europa e Estados Unidos e, em seguida, ocidentalizadas, como China, Oriente Médio etc. São disfuncionamentos que estão na origem de muitos dos desequilíbrios climáticos, como o consumo excessivo, o turismo planetário, nossa relação com os animais, que também é um eixo da exposição, nossa relação com a tecnologia, o smartphone, o carro, telas de todos os tipos, a maneira como modificamos as paisagens”, acrescenta Bajac.

    Martin Parr em São Paulo

    Essa visão crítica e irônica sobre a sociedade de consumo também foi o pilar da exposição "Parrtifícial", realizada no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, em 2016 sob a curadoria de Iatã Cannabrava. “Foi uma doideira”, relembra o fotógrafo e curador brasileiro. “Logo na entrada de um salão grande com um pé direito triplo, tinha lá ele, em vídeo, falando assim: 'Venha para este mundo de consumo, lembrando que você também é um produto'”.

    Para o curador, a genialidade de Parr residia na sua capacidade de inclusão, observa que o fotógrafo e sua esposa chegaram a posar para o livro Bored Couples (Casais Entediados), dizendo que "mais importante do que ser irônico com o mundo é nos incluir nessa ironia também".

    Além de sua contribuição visual, Parr é celebrado por seu papel na democratização da fotografia e na valorização do fotolivro. Iatã Cannabrava descreve o fotógrafo como o "workaholic mais alucinado" que já conheceu, alguém capaz de manter controle absoluto sobre sua produção, mas que sempre demonstrou enorme generosidade."

    "Democrata da fotografia"

    Cannabrava afirma que Parr não apenas revolucionou, mas somou ao conceito de fotografia pública, ajudando a difundir narrativas visuais para todos os públicos e colaborando ativamente na história do fotolivro latino-americano. Por esse esforço em tornar a fotografia acessível e por sua influência global, o curador brasileiro define Martin Parr como o "maior democrata da fotografia mundial".

    Em 2014, foi inaugurada a Fundação Martin Parr, em Bristol, sudoeste da Inglaterra, para abrigar o acervo do artista, coleção de impressões e dummies (projetos de livros) feito por outros fotógrafos, principalmente britânicos e irlandeses.

    A trajetória incluiu a superação de resistências internas para ingressar na prestigiosa agência Magnum, em 1994, da parte de uma parte dos integrantes, partidários de uma representação mais humanista. Mas o estilo de Parr o consolidou como um artista de muitas camadas, cujo trabalho lúdico esconde uma leitura mordaz e documental sobre a banalidade da vida cotidiana e seus desdobramentos.

    “Global Warning” fica em cartaz no Jeu de Paume até 25 de maio de 2026.

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  • Em francês, Maria Fernanda Cândido encarna enigmas de Clarice Lispector em Paris
    Jan 22 2026
    A atriz Maria Fernanda Cândido apresenta em Paris Ballade au-dessus de l’abîme (Balada acima do abismo, tradução livre), de 21 de janeiro a 1º de fevereiro de 2026, no Théâtre du Soleil, em Paris. Com direção de Maurice Durozier e o piano sublime de Sônia Rubinsky como personagem e presença, o espetáculo coloca em perspectiva e faz dialogar Brasil e França, literatura e música, revelando a intensidade e as contradições de Clarice Lispector. O Théâtre du Soleil é um dos espaços mais emblemáticos do teatro contemporâneo francês. Fundado por Ariane Mnouchkine em 1964, o local é reconhecido internacionalmente pelo trabalho coletivo, estética rigorosa e forte dimensão política e humanista, sendo referência da cena europeia, embora ainda pouco conhecido do público brasileiro em geral. O espetáculo propõe um diálogo intenso entre literatura e música, atravessando a obra de Clarice Lispector desde a infância até a sua morte, e a espiritualidade da autora. Maria Fernanda observa que, ao invés de pensar num abismo entre palavra e música, "é mais justo imaginar uma ponte, uma ligação, porque, nesse diálogo, as conexões vão se criando de maneira muito orgânica, muito intensa e muito real”. As músicas, escolhidas com precisão, "não são um simples fundo sonoro, mas interlocutor do texto, ajudando o público a compreender o universo afetivo e literário da autora", explica a atriz. Nesse sentido, a presença de compositores como Sergei Rachmaninov (1873-1943), Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e Alberto Nepomuceno (1864-1920) não é "aleatória". Maria Fernanda explica que “não é à toa que escolhemos Rachmaninov, porque existe uma nostalgia eslava muito presente na obra da Clarice, na própria história de vida dela”, enquanto a música brasileira traduz a brasilidade profunda da autora. Clarisse e a paixão pela língua portuguesa Villa-Lobos e Nepomuceno trazem esse universo em contraponto com algo distante geograficamente, como Rachmaninov, criando um diálogo entre o Nordeste – "especialmente Recife, onde Clarice cresceu" – e outras paisagens afetivas. Esse Recife aparece como fonte de memórias e experiências que atravessam os contos abordados no espetáculo, como Águas do Mundo, Restos de Carnaval e A Repartição dos Pães. Ao falar do desafio de condensar a obra de Clarice Lispector em cerca de 70 minutos, Maria Fernanda afirma que foi inevitável incluir a paixão visceral da escritora pela língua portuguesa. “Clarice expressa isso de maneira tão clara e tão exposta que emociona profundamente”, diz a atriz, citando o trecho em que a autora afirma ter feito da língua portuguesa sua vida interior e seu pensamento mais íntimo. Para ela, é comovente imaginar a fricção constante entre a ponta do lápis e a folha em branco: a vocação para a escrita é um dos eixos centrais da peça. “Não tinha como não incluir o momento em que a obra fala do ato de escrever”, diz, sobre um trecho que aprecia particularmente. Leia tambémMaria Fernanda Cândido leva frescor para coleção francesa de audiobooks de Clarice Lispector Questionada sobre o que teria sido impossível levar à cena, a atriz relativiza: "a vastidão da obra naturalmente deixou de fora muitos aspectos, o que despertou o desejo de criar outros espetáculos no futuro". Maria Fernanda revela que já existe a ideia de uma nova criação no mesmo formato, mas dedicada a outros temas. O "arco dramático" de Ballade au-dessus de l’abîme, segundo ela, é bem definido: o espetáculo parte da concepção de Clarice – de como e por que ela nasceu – e segue até sua morte, atravessando infância, vida adulta, uma relação amorosa marcada por erotismo, o ato de escrever, a paixão pela língua portuguesa e o lado espiritual da autora. A peça se encerra justamente nesse momento final. Para Maria Fernanda, o espetáculo funciona como uma "porta de entrada para o universo de Clarice Lispector", capaz de dialogar tanto com leitores já familiarizados com a obra quanto aqueles que nunca tiveram contato com ela, oferecendo uma experiência singular do mundo literário da autora. “O piano como personagem que toca a alma” A pianista Sônia Rubinsky, reconhecida internacionalmente por suas interpretações de Villa-Lobos e de clássicos do cânone russo e mundial, dá ao piano um papel de verdadeiro personagem, criando pontes entre palavra e música. Para Sônia, “ é um diálogo absolutamente, que não dá para separar uma coisa da outra”. O piano "influencia o ritmo emocional da peça, estando sempre presente, intensificando a experiência sensorial e emotiva", afirma. "A música não apenas acompanha, mas elucida e amplia a compreensão do texto de Clarice", sublinha Rubinsky. O repertório, cuidadosamente escolhido, dialoga com a obra, reforçando a intensidade das emoções e permitindo que o público sinta o ritmo, a poesia e a tensão de cada cena. Entre ...
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  • Exposição no sul da França celebra Dom Quixote e a força de uma lenda que atravessa gerações
    Jan 16 2026
    Após homenagear Jean Genet e Gustave Flaubert, o Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo de Marselha, o Mucem, no sul da França, continua sua série de exposições literárias celebrando um herói nascido na Espanha, que se tornou uma figura lendária em todo o mundo: Dom Quixote. A exposição Dom Quixote: entre a Loucura e o Riso destaca os aspectos cômicos, turbulentos e populares da obra, e sua presença constante nas artes e na cultura cotidiana. Com um percurso deliberadamente anacrônico, assim como o herói imortalizado por Cervantes, o Mucem apresenta mais de 200 peças de diferentes tipos e épocas, com curadoria de Aude Fanlo e Helia Paukner, que detalha a maneira encontrada para celebrar Dom Quixote junto ao público contemporâneo. "Dom Quixote nos encara pessoalmente por meio de uma marionete tradicional japonesa do tipo Bunraku, quase em tamanho humano. Ele está lendo, enquanto Dulcinéia voa acima dele em sua imaginação. Ele também aparece em frente à entrada, através de uma pintura de Célestin Nanteuil, que é um autorretrato dele como Dom Quixote. E, claro, como ele está lendo, ele se encontra no meio de sua biblioteca, de maneira semelhante à técnica de mise en abyme praticada por Cervantes. Aqui, então, reproduzimos essa mise en abyme, ou seja, esta provocação que conta uma história dentro de outra história, como um espelho: Dom Quixote se encontra cercado por múltiplos exemplares de Dom Quixote", detalha Helia Paukner. As duas curadoras optaram pour uma experiência imersiva, levando os visitantes para a narrativa, com salas que correspondem aos capítulos do romance. A primeira sala é dedicada à sua biblioteca e os livros apresentados em sua vitrine são versões - algumas delas feministas -, adaptações e também traduções de Dom Quixote, apresentando toda a amplitude do livro, traduzido em cerca de 140 linguas. "Escolhemos traduções surpreendentes, entre elas um pequeno livro escrito em caracteres árabes. É uma tradução persa de Dom Quixote. O mais impressionante é que essa obra, dos anos 1920 ou 30, é ilustrada com fotografias. É um belo objeto, que testemunha um encontro cultural, já que essas imagens foram tiradas de um filme de 1926 em que Dom Quixote e Sancho Pança eram interpretados na tela por Double Patte e Patachon, um famoso duo de comédia dinamarquês", precisa Paukner. O caráter internacional de Dom Quixote e seu alcance planetário está presente em toda a exposição, como mostra o percurso proposto na sala seguinte do Mucem. Exemplo disso é o documentário intitulado Tarzan, Dom Quixote e Nós, de Hassen Ferhani. Com esse filme, o diretor argelino mostra a que ponto Miguel Cervantes, autor de Dom Quixote, marcou a memória de sua cidade, Argel, como contam as curadoras. "Tudo parte, de fato, da vida de Cervantes, já que ele foi mantido em cativeiro por cinco anos em Argel e teria tentado várias vezes escapar, buscando refúgio numa gruta conhecida como Gruta de Cervantes, que acabou dando nome a todo o bairro", diz Aude Fanlo. Através do conjunto de suportes apresentados na exposição, de todas as épocas e países muito diferentes, compreendemos que o personagem pertence a todos. Isso motivou a curadora Aude Fanlo a lhe dedicar uma exposição completa. "Para todos nós, Dom Quixote é como uma lembrança perdida, mas que ainda temos na ponta da língua, algo que todo mundo imagina ou intui, mesmo sem ter lido, e é esse tipo de fantasma coletivo que queríamos fazer redescobrir em toda a sua vitalidade. É um fantasma muito vivo, muito divertido. É um velho que volta a ser criança. E é essa fantasia, essa incongruência, essa loucura divertida que queremos mostrar aos visitantes", diz. Entre os visitantes, Catherine observa um vídeo de Abraham Poncheval de 2018. Um Dom Quixote moderno atravessa o interior da Bretanha vestido com uma armadura medieval. "É a história, sim, de um homem um pouco louco que corre atrás de seus sonhos, por assim dizer. Acredito que ele faz parte daqueles heróis com os quais todo mundo, em algum momento, pode se identificar", acredita. "É uma imagem atemporal. Na verdade, Dom Quixotes certamente existem aos montes ao nosso redor. Ele está ali, com sua armadura, mas poderia ser qualquer pessoa caminhando pela estrada. Vemos muitos assim: pessoas andando ou simplesmente buscando algo dentro de si mesmas. É uma imagem que, na minha opinião, não tem a ver com uma época específica, mas com a natureza humana", conclui. As curadoras da exposição fazem questão de avisar os visitantes para se tomar cuidado com o compilado de "utopias" que colamos normalmente ao personagem de Dom Quixote. "Toda vez que o idealizamos, nós o ridicularizamos", diz Helia Paukner. E o que o faz permanecer no imaginário coletivo, segundo ela, não é o fato de se agarrar a um só ideal, mas "poder reencarnar diversos outros". A exposição Dom Quixote: entre a Loucura e o Riso fica...
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  • Museu mais visitado do mundo, Louvre cria tarifa mais cara para não europeus e vai verificar documentos
    Jan 9 2026
    O Louvre busca ampliar suas receitas a qualquer custo. O icônico museu vai aumentar em 45% o preço do ingresso para visitantes de fora da Europa em 2026. A partir de 14 de janeiro, os visitantes que não pertencem ao Espaço Econômico Europeu (EEE), que inclui União Europeia, Islândia, Liechtenstein e Noruega, terão de pagar € 32 para percorrer os 73 mil metros quadrados do museu, € 10 a mais do que o valor atual. Questionada pela RFI, a assessoria do Louvre confirmou que a entrada de acesso às galerias passará a ter controle de documentos. A medida, aprovada pelo conselho de administração do museu, tem como objetivo “reforçar a receita” da instituição, uma das mais visitadas do mundo. A decisão do Louvre se estende a outros locais muito visitados, dentro e fora da capital francesa. A partir da próxima quarta-feira (14), os ingressos ficarão mais caros para o mesmo público nos Castelos de Versalhes e de Chambord, e na igreja Saint-Chapelle, em Paris. O curador alemão e diretor da Pinacoteca de São Paulo, Jochen Volz, comentou esse reajuste nos preços do museu mais visitado do mundo. “A questão dos valores cobrados como ingresso para museus é sempre uma discussão muito delicada. É importante analisá-la em conjunto com as políticas de gratuidade, meia-entrada e parcerias. Na Pinacoteca de São Paulo, por exemplo, aproximadamente 78% do público entra se beneficiando de gratuidade. Ainda assim, a bilheteria é, para nós e para todos os museus, uma fonte de receita importante”, analisou. “Entendo que o Louvre, pelo que se espera, terá um aumento de receita de aproximadamente € 17,5 milhões por ano. Esse é um valor significativo para a manutenção do museu e para a gestão de seus acervos. Cobrar um valor diferenciado para turistas é uma forma de se beneficiar da fama do Louvre como destino. Ao mesmo tempo em que se preserva um certo nível de acessibilidade para usuários frequentes locais, estudiosos, estudantes e públicos regionais, que potencialmente visitam o museu com uma frequência muito maior”, sublinhou Volz. Quem vai pagar mais caro? Os principais grupos de visitantes estrangeiros que devem pagar mais pela entrada no Louvre – e nas demais instituições afetadas pelo reajuste – são os norte‑americanos, que representam o maior contingente, seguidos pelos chineses. Os brasileiros aparecem na sétima posição entre os visitantes extraeuropeus e também serão impactados pela medida. A sindicalista francesa Nathalie Ramos foi uma das principais vozes entre aquelas que denunciaram as condições precárias de trabalho e a falta de respostas satisfatórias da direção do museu e das autoridades, durante uma recente greve no Louvre. Sobre o aumento do preço dos ingressos, ela denunciou uma política “discriminatória”, que “fere princípios de acesso e de universalismo cultural”, agravando ainda mais a imagem do museu. “A imagem do Louvre não é muito gloriosa no momento. Entre essa ideia que queremos dar do maior museu do mundo, que quer implantar projetos gigantescos, e a realidade dos meios de que dispomos, existe um enorme abismo”, disse. O galerista Philippe Mendes, um dos mais influentes de Paris e administrador de um espaço no Louvre dedicado a obras portuguesas, opinou sobre a tentativa institucional da presidente do museu, Laurence des Cars, de salvar o plano do Louvre para 2030. “O museu está em uma situação muito tensa. Acho que o ambiente interno não é nada bom, porque o que aconteceu – roubo espetacular, seguido de greve – foi muito grave. E, quando há algo assim, espera-se sempre que algumas responsabilidades sejam apuradas”, disse à RFI. Leia tambémRoubo milionário no Louvre poderia ter sido evitado, aponta relatório de segurança ignorado pela direção “Além disso, o Ministério da Cultura nomeou um homem para administrar o Louvre. Ele não é militar, mas trabalhou para o Ministério da Defesa e nas obras da catedral de Notre-Dame, inclusive durante o restauro. Isso também é um sinal muito forte de que [a presidente da instituição] Laurence des Cars precisa ser mantida onde está. Para não deixá-la de fora, encontraram alguém que agora vai tentar reestruturar o Louvre, uma espécie de tutela para dar continuidade a esse grande projeto, que é o projeto 2030”, afirmou Mendes. A artista Laura Lima, um dos nomes brasileiros mais proeminentes das artes visuais no mundo e atualmente em cartaz no Instituto de Artes Contemporâneas de Londres (ICA), tem uma opinião clara sobre o assunto. “Todos os museus deviam ser como as praças públicas, abertas para todo e qualquer tipo de pessoa e origem”, declarou Lima, que, ao lado de Ernesto Neto e Márcio Bottner, é uma das fundadoras da galeria Gentil Carioca, no Rio de Janeiro. Pesquisadora em cinema e acostumada a visitar museus em várias partes do globo, a brasileira Luíza Alvim lembrou que o Louvre não é um caso isolado ...
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  • Exposição em Paris equaciona diálogo entre racionalismo europeu e vitalidade tropical na arquitetura
    Jan 2 2026
    A Triptyque Architecture celebra 25 anos com a exposição Corps mort / Corps vivant, em Paris. Fundado por Olivier Raffaëlli e Guillaume Sibaud, o escritório franco-brasileiro construiu sua longa trajetória entre o rigor modernista europeu e a experimentação tropical. A mostra reúne maquetes que tensionam permanência e transformação, de ocas do Xingu a torres paulistanas, passando por uma Brasília distópica. O diálogo traduz uma arquitetura híbrida, capaz de unir tradição e futuro. Ao celebrar a trajetória, os profissionais revisitam sua história marcada pela ponte entre França e Brasil. Os arquitetos Olivier Raffaëlli e Guillaume Sibaud lembraram que essa ligação não nasceu de um plano prévio, mas de uma paixão inesperada. “Foi um amor à primeira vista no Rio de Janeiro. Sem projeto organizado de permanecer, acabamos ficando. Eu vivi 15 anos de modo permanente, sem voltar à França. Isso mostra o tamanho do vínculo com o país, onde, além de desenvolver a Triptyque, também fundamos nossas famílias, hoje franco-brasileiras”, contou Sibaud. Entre a floresta e o concreto: o Rio como manifesto Ao refletir sobre o olhar brasileiro sobre os espaços, eles destacaram a singularidade do Rio de Janeiro. “É uma cidade manifesta, inacreditável. Ela expressa o encontro entre a força da natureza e a arquitetura. No meio da cidade, há uma floresta quase nativa, confrontada com uma construção moderna e densa. Esse contraste nos inspirou a pensar a arquitetura de forma diferente, criando novos conceitos a partir dessa relação entre cidade e natureza”, ressaltou Raffaëlli. A exposição traz também uma maquete de Brasília, que provoca uma visão utópica (ou distópica) da capital. “Essa invasão da natureza nos seduz porque não foi prevista, mas negada. O modernismo afirmava o controle da natureza, impondo uma ordem cultural sobre a ordem natural. No Brasil, isso funcionou até certo ponto. A Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, por exemplo, foi construída em um morro desmatado e hoje está reabsorvida pela vegetação. Essa tensão entre vigor tropical e arquitetura humana é central. A maquete de Brasília traz ainda uma provocação: pensar a cidade permitindo o retorno da natureza e dos povos originários, revisando afirmações modernistas que foram autoritárias, ainda que belas e refinadas”, explicou Sibaud. Ao descrever a exposição, os arquitetos ressaltaram a dificuldade de traduzir maquetes em palavras, já que a arquitetura é, para eles, uma “extensão do corpo humano”. “De forma simples, a mostra se organiza em dois eixos: construções mais tradicionais e construções mais modernas. No eixo moderno, há torres de concreto e madeira, projetos urbanos. No eixo tradicional, ocas e construções menores, de poucos andares. A ideia é criar uma hibridação entre arquitetura urbana e vernacular, entre ordem artificial e ordem natural. Pensamos a arquitetura não mais como objeto morto, mas como corpo vivo, capaz de várias vidas, reciclável, sensual e menos utilitário”, detalhou Raffaëlli. Corpos mortos e corpos vivos: a arquitetura em reinvenção Guillaume Sibaud acrescentou que essa tensão entre forças define a arquitetura do futuro. “É preciso inscrever o ato de conceber prédios nas preocupações ambientais e nas limitações de recursos. A arquitetura não pode ser apenas demolição e reconstrução. Ela deve sobreviver a si mesma”, disse. “Por isso, criamos figuras conceituais que ajudam a pensar essa sobreposição: o que permanece e o que muda. Chamamos de corpo morto o que é essencial e duradouro, mas que também tem várias vidas. Já o corpo vivo é o uso mutável: hoje hotel, amanhã escritório, depois moradia. Ele precisa ser maleável e reprogramável. Essa reflexão nos leva a olhar para arquiteturas mais primitivas, que oferecem repertórios ricos e livres para os arquitetos contemporâneos”, sublinhou. A diversidade das maquetes reforça esse diálogo. “No Xingu, as ocas são consideradas seres vivos: têm boca, pernas, são descritas como corpos. Já em São Paulo, as torres são vistas como objetos inertes, de consumo. Nosso caminho criativo é reconceitualizar esses corpos mortos das cidades, onde a maioria vive, transformando-os em corpos vivos. O Xingu nos ensina muito e inspira caminhos para recriar uma arquitetura bela, emocionante, que faça sentido ecológico e emocional”, destacou Raffaëlli. Sobre os projetos futuros, os dois revelaram que o escritório vive a felicidade de atuar simultaneamente no Brasil e na França. “No Brasil, estamos desenvolvendo prédios educacionais, uma biblioteca para o Instituto Cervantes em São Paulo e fomos selecionados para projetar um estádio em Minas Gerais. Queremos expandir nossa prática em instituições nos dois países, além de continuar com projetos de habitação, escritórios e hotéis. Essa diversidade nos ajuda a refletir sobre o mundo ...
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