Carnaval de rua de Paris é cancelado, mas iniciativas ganham força popular nos subúrbios copertina

Carnaval de rua de Paris é cancelado, mas iniciativas ganham força popular nos subúrbios

Carnaval de rua de Paris é cancelado, mas iniciativas ganham força popular nos subúrbios

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Este ano, as ruas de Paris permanecerão em silêncio durante o período carnavalesco, após o cancelamento definitivo do desfile de rua que vinha sendo organizado pela associação Droit à la Culture (Direito à Cultura), por falta de recursos financeiros e voluntários. Mas o espírito carnavalesco se transforma, virando resistência na periferia ou uma grande festa de amor à beira do Sena.

Patrícia Moribe, da RFI em Paris

O carnaval de rua em Paris tem suas raízes no século 11, com festejos intermitentes. Abalados pelas guerras, os festejos foram interrompidos na década de 1950, sendo retomados no final do século 20, até a última edição, em 2025.

Adriana Facina, antropóloga e pesquisadora do Museu Nacional, professora convidada do IHEAL (Instituto de Altos Estudos da América Latina), em Paris, participou de um estudo comparativo entre 2024 e 2026 sobre as conexões entre coletivos artísticos das periferias do Rio de Janeiro e de Paris, especificamente em Saint-Denis e Stains.

Em parceria com a historiadora Silvia Capanema, da Universidade Paris Nord, a pesquisa investigou grupos como o Loucura Suburbana, no Rio, e o Action Créole, que organiza o carnaval de Stains (a 25 quilômetros de Paris), para entender como a cultura supre a ausência de organizações tradicionais.

"A gente entende esses coletivos como novos tipos de movimentos sociais contemporâneos, num contexto de enfraquecimento de sindicatos e de formas de partidos populares", disse, em que a arte serve para "produzir uma reivindicação política em seus territórios, no sentido de garantir direitos básicos para a população das camadas populares".

Ancestralidade

Essa profundidade política e social do ritmo é corroborada pelas pesquisas do musicólogo Lameck, baseado em Paris, que estuda a ancestralidade da música afro-brasileira. Para ele, é essencial entender que "o samba nasce durante a escravidão" e que, em sua origem, não era um ritmo puramente alegre, mas sim um "grito de lamento" nascido no cativeiro.

Lameck destaca que a palavra samba significa "reza" no dialeto kimbundo e que a dança e a percussão são linguagens de comunicação para momentos de introspecção e espiritualidade, e não apenas para a festividade vista pelo olhar externo.

A pesquisa dos subúrbios do Rio e Paris virou exposição, "Os vagalumes: arte, cultura e esperança nas periferias urbanas do Rio e Paris", em cartaz até 13 de março, no campus da Universidade Paris Nord.

Amor sem pressão no Sena

Enquanto a periferia se organiza politicamente, o centro de Paris verá o Carnaval ocupar o rio Sena por meio do Baile Bom Brazilian Kiss, no barco Le Mazette. A agitadora cultural Rosane Mazzer, com mais de 30 anos de atuação na França, decidiu aproveitar a coincidência da data com o Dia dos Namorados local (Saint-Valentin) para propor uma subversão: "decidimos inventar uma festa de amor aberto aos amigos e tirar essa pressão de Saint-Valentin, que é uma coisa meio chata. Vamos fazer uma amação geral".

As atrações do Baile Bom prometem uma imersão completa na cultura brasileira contemporânea. A programação inclui aulas de samba com Wellington Lopes, a interferência percussiva de 15 integrantes da Batalá Batucada e vários DJs.

Para quem gosta de desfile na rua, a prefeitura de Paris confirmou para o próximo dia 5 de julho mais uma edição do Carnaval Tropical de Paris, na avenida Champs-Elysées, um evento que destaca grupos de música e danças tradicionais principalmente das Antilhas (Guadalupe, Martinica, Reunião e Guiana). No ano passado, marcado pela Temporada França-Brasil, o carnaval brasileiro foi o convidado de honra.

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