Episodi

  • Episódio 13 – HPV: antecipar o diagnóstico poupa consulta
    Oct 20 2026

    A Dona Railda tem 41 anos, mora no Zerão, em Macapá, e é atendida na UBS Padre Raul Matte. Operadora de caixa, escala de seis por um. O último preventivo foi quatro anos atrás, e não é descuido: a unidade abre de sete às cinco, e o caixa também. Veio porque a agente comunitária bateu três vezes: "Deu alterado, doutor?"

    O ensaio HPV FOCAL (Ogilvie GS et al., JAMA, 2018; doi 10.1001/jama.2018.7464): randomizado em 19.009 mulheres de 25 a 65 anos na Colúmbia Britânica, teste de DNA-HPV por captura híbrida, 13 tipos, sem genotipagem — não o PCR genotipado do SUS — contra citologia, com coteste de saída nos dois braços, 48 meses.

    O que a gente discute:

    • Na entrada o exame novo achou mais lesão de alto grau. No fim dos quatro anos, achou a mesma quantidade: 89 contra 93. O desfecho de saída dá 2,3 contra 5,5 por mil, mas o cumulativo empata — e esse segundo número não está no resumo do artigo.
    • Em contagem de gente: no exame de saída, são 311 mulheres rastreadas (195 a 676) para adiantar uma lesão, não para evitar uma — no total dos quatro anos não é uma lesão a menos.
    • O pedágio da entrada é colposcopia, e ele tem número: uma a mais a cada 38 mulheres na primeira rodada. E ele não acumula — no total dos quatro anos a diferença fica em 4,7 por mil, num intervalo que atravessa o zero.
    • Colposcopia negativa não devolve a paciente ao risco de rotina. Entre as que tiveram colposcopia sem lesão numa rodada anterior, o grau dois pra cima no exame de saída foi de 43 por mil, contra cerca de 20 no ensaio inteiro. É por protocolo, e a informação é dela.
    • A tabela de etnia tem cinco categorias, e nenhuma é negra — não é que sejam poucas, é que não existe a linha. A cor foi registrada, literal, para garantir que a randomização era verdadeira, e não há análise separada por cor. A Dona Railda é uma mulher negra.
    • Nada deste episódio se aplica a mulher vivendo com HIV. O corpo do artigo exclui quem era HIV positiva ou estava em imunossupressão, e o resumo da revista diz só a segunda metade: a palavra HIV não aparece lá.
    • O ensaio foi atrás de quem não procurou, pelo registro provincial: 76.422 convidadas, 43.645 nunca responderam, 33 em cada 100 entraram. O programa mais organizado que existe levou um terço das que chamou. E o resultado vale para as que vieram e assinaram.
    • A diretriz brasileira de 2025 não para na reconvocação: recomenda autocoleta pelo agente comunitário em visita domiciliar, forte e com certeza alta, até quatro vezes mais adesão. Com duas ressalvas dela mesma: a conta de custo não modelou autocoleta, e se o exame pedir citologia a mulher volta à unidade.
    • O benefício é de 30 pra cima. Entre 25 e 29 o primário não é significativo — intervalo até 1,02 — e no total dos quatro anos o braço do vírus achou mais grau dois nelas, 59 contra 53. A diretriz brasileira não finge que demonstrou: condicional, certeza baixa.
    • ⚠️ O exame que você pede amanhã é o que a sua unidade oferece. Na maior parte do Brasil ainda é o preventivo, e o Ministério manda manter assim por enquanto. O caso foi montado onde o exame novo já chegou, e a oferta na unidade dela não foi verificada.
    • E o episódio divide com a semana passada o desfecho substituto: o registro do ensaio chama o grau três de marcador substituto, e grau três não é câncer nem morte. Financiamento público, e 6 de 15 autores com estudos pagos por Hologic e Roche.

    Para levar no bolso: em quatro anos, o teste de HPV não achou mais doença que o preventivo, nem menos. 89 contra 93. Achou a mesma doença mais cedo, com uma ida a menos ao posto. Ele não poupa diagnóstico, poupa consulta. E consulta poupada só vira cuidado se for gasta com quem nunca veio.

    Na quinta: outro exame que devolve um número em vez de um diagnóstico. Quando é que saber mais cedo é cuidado, e quando é só sair da sala com uma etiqueta?

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  • Episódio 12 – Benzodiazepínico: o paciente começa, o obstáculo é a gente
    Oct 15 2026

    A Dona Lindalva tem 70 anos, mora no Jacintinho, em Maceió, e há catorze anos renova a mesma receita azul de clonazepam de dois em dois meses, porque a lei obriga. Hoje chega com meia folha de caderno dobrada em quatro e uma pergunta escrita: "Doutor, dá pra eu sair disso?"

    EMPOWER (Tannenbaum C et al., JAMA Intern Med, 2014): randomizado por conglomerado em 30 farmácias de Quebec, 303 idosos em uso crônico de benzodiazepínico e polifarmácia, seis meses de seguimento. A intervenção foi um folheto de oito páginas enviado pelo correio ao próprio paciente.

    O que a gente discute:

    • 40 de 148 pararam de renovar em seis meses, 27%, contra 7 de 155, 4,5% — 23 pontos, intervalo 14 a 32, sem p publicado e sem p inventado. De 3 a 7 envelopes por uma saída. E não renovou não é não tomou: um degrau antes do que interessa.
    • O paciente inicia, mas quem decide é o profissional. De 123 seguidas no braço do envelope, 76 levaram o assunto a médico ou farmacêutico, e dos 38 que pararam, 29 passaram por essa conversa. Não é comparação sorteada, e a causa é ambígua: quem decidiu parar é que foi conversar.
    • E entre os que desistiram, o obstáculo mais comum foi um profissional de saúde. São 17 das 52 que receberam o envelope e decidiram não tentar, 33% — autorrelato, um só braço, lembrança de meio ano.
    • 27% pode não ser mais do que já se tinha. Um estudo com carta do médico de família deu 24% contra 12%. Nos braços ativos, 24 e 27 — o dobro de efeito vem do comparador, que quase não se mexeu. Não é sorteio: são dois estudos diferentes.
    • O folheto aponta para outro comprimido em três lugares, e cinco dos quarenta trocaram por outro sedativo. Sem contar essas trocas como vitória: 35 de 148, 19 pontos.
    • A quem isto não representa: os 27% saem de 11% dos elegíveis — de 2.716 com o critério, 303 sorteadas, e 1.853 sem interesse, que recusaram um estudo com entrevista em casa e diários, não um envelope. Raça e renda ninguém mediu: não há linha de cor na tabela.
    • O registro de 2010 lista quatro desfechos secundários, e um era o sono, por diário. Nenhum dos quatro foi publicado — não é acusação de ocultação: ninguém sabe, e esse é o ponto. Queda e fratura, o motivo de o ensaio existir, não foram medidas.
    • Os 42% com sintomas na descida não têm comparador: autorrelato num braço, lembrança de meio ano. Os 32% contra 38% do comprometimento cognitivo leve também não, por outro motivo: a lista de espera recebeu o folheto depois, e a análise juntou os braços. Contraste observado, e não fala de demência: nota baixa saiu de propósito.
    • A receita azul já obriga reencontrar o prescritor a cada 60 dias, seis vezes por ano. A consulta já existe. O que falta é o envelope.

    Para levar no bolso: o folheto não tirou o comprimido de ninguém, ele pôs o paciente na frente do médico com a pergunta pronta. E entre os que desistiram, quem mais atrapalhou foi um profissional de saúde.

    Na terça: varrer um cadastro, convidar quem não pediu nada, mudar a receita de quarenta e não medir saúde. Quando é que procurar quem não procurou vira cuidado, e quando vira só achar?

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    29 min
  • Episódio 11 – Insônia: menos tempo na cama, e metade em quem toma
    Oct 13 2026

    O Seu Antenor tem 63 anos, é marceneiro no bairro Santa Terezinha, em Cuiabá, e há doze anos renova a mesma receita de clonazepam. Dessa vez ele faz outra pergunta: "Doutor, e no lugar disso, tem o quê?"

    HABIT (Kyle SD et al., The Lancet, 2023; doi 10.1016/S0140-6736(23)00683-9): randomizado em 35 unidades básicas inglesas, 2018 a 2020, 642 adultos com insônia, seis meses de seguimento. Um braço: folheto de higiene do sono. O outro: o folheto mais quatro sessões de restrição de sono com a enfermeira — 86 minutos, duas presenciais e duas por telefone.

    O que a gente discute:

    • A gravidade da insônia caiu de 17,7 na entrada para 10,9 na terapia contra 13,9 no folheto aos seis meses: diferença ajustada de 3,05 pontos (2,28 a 3,83). Mas o braço que ganhou perdeu o dobro de gente — 19,9% contra 9,3% — e não ao acaso: a faixa honesta é 2,2 a 3 pontos.
    • Em contagem de gente, não de média: oferecendo a cinco ou seis pessoas, uma a mais responde.
    • A terapia não faz ninguém dormir mais — faz passar menos tempo na cama. São 38 minutos menos, e o número sai por conta, não da tabela. Diário e punho dão o mesmo valor: pode ser confirmação ou repetição, porque o relógio mede sono numa janela que alguém marcou.
    • Em quem já tomava comprimido o efeito foi metade: 1,81 contra 3,47 — é o paciente do título. É sinal, não efeito comprovado: interação 0,072, o ensaio não tinha tamanho para subgrupo, 5 dos 6 subgrupos fora do protocolo, e o número sai de 130 pessoas.
    • Aos seis meses, o uso de comprimido era 13,4% num grupo e 12,3% no outro — sem diferença que o ensaio conseguisse mostrar, e ele não foi feito para responder isso.
    • Custo: dez vezes abaixo do limite inglês para dizer que um tratamento vale a pena.
    • Nenhum dos dois braços é o que a diretriz recomenda. Restrição de sono é um dos seis componentes da terapia comportamental, isolado — não a terapia completa, que a diretriz põe em 4 a 8 sessões de 60 a 90 minutos. E higiene do sono isolada a diretriz brasileira não recomenda.
    • A quem este ensaio não se aplica: 212 pessoas saíram na triagem por trabalhar em turno e 83 porque o sono ruim vinha de criança pequena, de cuidar de alguém ou de barulho em casa — critério de elegibilidade. Para esses, a insônia que mais entra na unidade básica, o ensaio não diz nada.
    • Validade externa: 97% das pessoas eram brancas, e os próprios autores escreveram isso na lista de limitações.

    Para levar no bolso: quatro conversas com a enfermeira não fazem ninguém dormir mais, fazem passar menos tempo na cama. A insônia melhora de verdade, e o comprimido continua na receita.

    Na quinta: quem já tentou tirar o comprimido, e quantos de fato saíram. Se não se tira sem ter o que oferecer, talvez não se ofereça direito sem tirar.

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    30 min
  • Episódio 10 – Antibiótico: sete dias, e de onde veio o sete
    Oct 8 2026

    A Josilene tem 38 anos, é ajudante de cozinha numa lanchonete na Torquato Tapajós e não tem carteira assinada: o dia que não vai, não recebe. É atendida na Unidade de Saúde da Família número 26, em Manaus. Pneumonia comunitária de baixa gravidade, para tratar em casa. Já de pé para sair, ela pergunta: e se eu melhorar antes, eu posso parar?

    O ensaio é de el Moussaoui et al. (BMJ, 2006), duplo-cego contra placebo idêntico: 119 adultos internados com pneumonia leve a moderada-grave, em nove hospitais na Holanda, sorteados no terceiro dia para parar ali ou completar oito dias de amoxicilina.

    O que a gente discute:

    • O sete não tem pai. O "7 a 10 dias" da diretriz de 2018 é copiado de um documento britânico, que o declara consenso de grupo de trabalho sobre o subgrupo de um único ensaio — de outro antibiótico, braços de 5 e 10 dias, nenhum de 7
    • E a diretriz se contradiz em quatro páginas. Na 413 a tabela diz 7 dias na amoxicilina; na 417 o texto diz 5. Mesmo paciente — e o médico lê a tabela, que é a que tem o nome do remédio
    • O teto defensável já é brasileiro: "igual ou inferior a 7 dias", Evidência A, na página 591 da diretriz de 2009. É teto, não piso: nem 10 nem 14 dias estão autorizados para essa paciente
    • O número principal do ensaio não fecha. Cura de 93% dos dois lados, margem de 10 pontos nunca justificada, e a intenção de tratar não a cumpre. Refeita a conta: ele encostou na linha, e o resumo diz que sobrou espaço. No dia 28 se sustenta
    • A porta do terceiro dia é uma CONSULTA, não detalhe de método: quatro critérios, temperatura, cultura, em hospital. 41 de 167 não passaram por ela — e só se soube porque alguém olhou
    • ⚠️ A prescrição NÃO muda. Os dois braços receberam três dias de amoxicilina na veia, internados, antes do sorteio. A Josilene trata em casa, pela boca, desde o dia um. Este ensaio não autoriza prescrever três dias na unidade básica
    • E quando ninguém manda parar? Num ensaio espanhol de 2016, a duração mediana no braço decidido pelo médico foi de 10 dias, com a metade do meio entre 10 e 11. Só 4 em 150 pararam em cinco
    • A camada daqui: a amoxicilina é gratuita na farmácia da unidade, mas não existe protocolo clínico federal de pneumonia comunitária. E estar na lista não é estar na prateleira

    Para levar no bolso: Três dias bastaram para quem foi olhado no terceiro dia. A receita diz sete porque ninguém vai olhar.

    Na terça: o que oferecer no lugar do comprimido de dormir — tratamento com nome e sessão marcada. E a mesma pergunta: quem escreve a data?

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    29 min
  • Episódio 9 – COMPASS: o omeprazol que ninguém revisou
    Oct 6 2026

    Seu Valdeci tem 54 anos, é homem negro, vigilante noturno, atendido na Unidade de Atenção Primária à Saúde Argeu Herbster, no Bom Jardim, em Fortaleza. Toma omeprazol há seis anos, renovado no balcão por quem estivesse ali, e duas dessas renovações eu assinei. Ele vira a tela do celular pra mim e pergunta em duas partes: isso faz mal? eu tiro?

    O braço de segurança do COMPASS (Moayyedi et al., Gastroenterology, 2019), duplo-cego contra placebo idêntico: 17.598 pessoas com doença cardiovascular estável sorteadas para pantoprazol 40 mg por dia, mediana de três anos, em quem não tinha indicação do remédio.

    O que a gente discute:

    • Derruba de verdade os dois medos de manchete — fratura e mortalidade. As estimativas do ensaio ficam abaixo do piso das coortes que criaram o medo
    • Não derruba demência nem doença de rim. Para demência ele só veria se o risco dobrasse, e as coortes acharam 1,44. No rim, 1,17 cai dentro do que uma coorte muito maior achou na dose de um por dia: ali não contradiz, repete
    • E a terceira é a maior: não fala sobre quem toma há seis anos, nem sobre mulher, nem sobre pessoa negra, nem sobre parar. Ausência de prova de dano não é prova de segurança
    • Nem sobre o remédio que ele toma. O ensaio testou pantoprazol 40 mg, que na medida de ácido equivale a 9,2 mg de omeprazol; a farmácia da unidade entrega 20 mg. Mais potente não é mais perigoso, mas também não tranquiliza
    • O paciente da consulta é justamente quem o ensaio deixou de fora: 9.681 pessoas, 35,3% do sorteio, foram excluídas por um motivo só, escrito no diagrama — necessidade de uso contínuo de inibidor de bomba de prótons
    • O único achado que subiu: infecção intestinal, 1,4% contra 1,0%. São 29 comparações sem ajuste, e ele perde a significância quando se exclui quem parou, p = 0,08. O que o sustenta é o mecanismo, não o p
    • A régua inverte num ensaio de dano: nenhum dos nove desfechos de dano foi julgado por comitê, e aqui toda imprecisão de medida empurra na direção da conclusão dos autores. É uma balança que erra pro lado que interessa
    • A camada daqui: testar H. pylori em quem usa o remédio para refluxo é recomendação brasileira de agosto, a mais forte da escala. O omeprazol é de graça na unidade, mas não está na Farmácia Popular. E nenhuma norma marca prazo

    Para levar no bolso: este ensaio não provou que o remédio é seguro. Provou que o medo era maior do que o risco. E não é a mesma coisa.

    Na quinta: onde a gente escreve uma data, todo dia, dezenas de vezes por dia, sem nunca ter parado pra perguntar de onde aquele número veio? Antibiótico. Por quanto tempo?

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  • Episódio 8 – Osteoporose: um quadril salvo, e em quem
    Oct 1 2026

    Dona Nazaré tem 78 anos, é parda e bateu açaí por 32 anos no Jurunas, em Belém, onde é atendida na Unidade Básica de Saúde Portal da Amazônia. Encostada na parede, mediu 1,52 m: cinco centímetros a menos que em 2015. O pedido de densitometria de 2023 nunca foi marcado. A mãe dela quebrou o quadril aos 78 anos.

    O HIP (McClung et al., New England Journal of Medicine, 2001), duplo-cego com placebo de aparência idêntica: 9.331 mulheres na análise, risedronato 2,5 ou 5 mg por dia, três anos, em dois protocolos paralelos — um entrando pela densitometria, outro principalmente por fator de risco que não é do osso.

    O que a gente discute:

    • No ensaio inteiro, fratura de quadril em três anos: 2,8% contra 3,9%, risco relativo 0,7 (0,6–0,9), p = 0,02
    • O que muda de uma porta para a outra é o que o ensaio consegue afirmar. Pela densitometria, 1,9% contra 3,2%, RR 0,6 (0,4–0,9), p = 0,009 — aqui ele afirma com firmeza. Pela clínica, 4,2% contra 5,1%, RR 0,8 (0,6–1,2), p = 0,35 — aqui ele não conseguiu afirmar
    • E ninguém comparou os dois grupos entre si: a palavra interação não aparece uma vez no artigo. O intervalo das de 80 contém dentro dele o efeito do ensaio inteiro
    • E a de 80 anos não é de baixo risco: era 41,6% da amostra e deu 56,5% das fraturas de quadril, 131 de 232. No placebo, quebrou em 5,1% contra 3,9% do ensaio inteiro. É a mulher de maior risco do estudo
    • Risco de viés alto, e de um domínio só: o plano de análise. Ele previa comparar cada dose com o placebo, e no meio do caminho as duas foram agrupadas — o significativo só existe agrupado, e eles assumiram por escrito. Pago pelo fabricante do remédio
    • O número para tratar tem endereço: em três anos, ele vai de cerca de 90 no ensaio inteiro para 77 entre as que tinham o osso medido e ruim, e para 29 numa célula daquela tabela — as que também já tinham uma vértebra quebrada. O 29 não é um estrato sorteado
    • A camada que só existe daqui: o remédio do ensaio é o mais difícil de conseguir dos dois bisfosfonatos orais que o protocolo brasileiro põe na frente. O que sai de graça na farmácia da própria unidade é o alendronato, que tem o ensaio dele
    • E o 77 tem endereço estreito: para entrar no grupo de onde ele saiu, o osso tinha que estar pior que −3 — no Brasil, osteoporose já começa em −2,5. O osso da Dona Nazaré ninguém mediu ainda, o que não quer dizer que não funcione

    Para levar no bolso: não foi o remédio que ficou melhor de noventa para vinte e nove. Foi o que se sabia sobre a mulher que ia tomar.

    Na terça: ela toma omeprazol todo dia há uns oito anos, desde uma gastrite que ela nunca mais investigou. E ela pergunta: isso faz mal, e eu tiro?

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    28 min
  • Episódio 7 – STRIDE: prevenir queda em sete frentes, e o que o estudo prova
    Sep 29 2026

    Dona Nair tem 79 anos, foi merendeira por 31 anos e é atendida na Unidade Municipal de Saúde Fanny Lindóia, em Curitiba. Escorregou saindo do chuveiro em abril, se segurou no toalheiro, e o toalheiro veio junto com o parafuso: fratura do punho. Osteoporose na densitometria de 2023, sem tratamento. Sete frentes abertas numa consulta — por onde começar?

    O STRIDE (Bhasin et al., New England Journal of Medicine, 2020), pragmático e randomizado por conglomerado: 86 práticas de atenção primária, 5.451 idosos, seguimento de 2,5 anos. Enfermeira treinada avaliando sete fatores de risco e montando plano individualizado, contra cuidado usual reforçado.

    O que a gente discute:

    • Lesão grave adjudicada, conferida em fonte de fora: 4,87 contra 5,34 por 100 pessoas-ano, HR 0,92 (0,80–1,06), p = 0,25. E nulo não é zero: o limite de baixo é a redução de 20% buscada, e os dados seguem compatíveis com o benefício inteiro
    • O secundário, sem limiar de gravidade e sem conferência nenhuma, deu positivo: 25,64 contra 28,62, HR 0,90, p = 0,004. Mas 0,92 e 0,90 são o mesmo efeito estimado — e a conta com mais evento é justamente a que ninguém foi conferir
    • O portão exigia duas coisas ao mesmo tempo, gravidade e confirmação externa, e o estudo não deixa separar quanto cada uma pesou
    • Quatro motivos para desconfiar do positivo: autorrelato sem cegamento; retirada de consentimento desigual (7,9% contra 5,9%, na direção que o infla); estimativa igual à do nulo; e ele não sobrevive à contagem de todos os eventos, como o artigo diz
    • O gargalo tem nome: entre quem tinha o fator, revisão de medicamento foi a menos priorizada (52,4%) e a menos aceita (28,6%). No total dos sorteados, 8 em cada 100 pactuaram uma
    • Não fez mal: óbito 8,4% contra 8,3%, internação 40,6% contra 41,8%. O problema não é dano — é não ter feito o bem esperado
    • 91,1% brancos e 5,4% negros, sem subgrupo por cor da pele. E 52,2% com ensino superior, num mecanismo que é conversa: a enfermeira apresenta, a pessoa escolhe
    • A camada que só existe daqui: a avaliação tem equivalente no IVCF-20, já no e-SUS. Falta protocolo brasileiro de queda na comunidade. E o STRIDE excluiu a prática pequena e independente — a nossa é unidade pública com equipe fixa, mais perto do que ele testou

    Para levar no bolso: em quase cinco mil e quinhentos idosos, prevenção de queda oferecida como pacote de sete frentes não reduziu lesão grave de um jeito que o estudo conseguisse provar. E, dentro do pacote, o item que quase ninguém aceitou encarar foi justamente a revisão do remédio.

    Na quinta: um remédio de osso em cima do cálcio que ela já toma — e um quadril salvo a cada cerca de noventa mulheres tratadas por três anos.

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    25 min
  • Episódio 6 – Tai chi: prevenir queda é aula, não remédio
    Sep 24 2026

    Seu Wanderley tem 73 anos, motorista de ônibus aposentado, e é atendido no Centro de Saúde Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte. Chega apoiado no braço da filha; é ela que fala: ele caiu duas vezes este ano na escada da rua, e agora não sai mais sozinho. Ele não contesta, só olha pro chão. Uma família decidiu proteger um idoso tirando dele o movimento.

    O ensaio de tai chi (Li et al., JAMA Internal Medicine, 2018) comparou três exercícios na mesma dose — duas aulas por semana, seis meses — em 670 idosos de alto risco, todos com queda no ano anterior ou mobilidade prejudicada.

    O que a gente discute:

    • Três braços — tai chi adaptado, exercício multimodal e alongamento — e 733 quedas: 152, 218 e 363. 58% menos com o tai chi e 40% com o multimodal, contra o alongamento; 31% menos no tai chi que no multimodal
    • O controle não ficou parado: fazia alongamento duas vezes por semana, com instrutor, na mesma sala, com as mesmas pessoas. O efeito de sair de casa está dentro do controle — o que sobra é o exercício
    • Queda com lesão grave — fratura, traumatismo de cabeça, pronto-socorro, internação ou sutura: 8 no tai chi contra 25 no alongamento, diferença significativa
    • A primeira limitação, dos próprios autores: o desfecho é autorrelatado, num diário em casa, e o participante sabe em que grupo está. Não derruba um efeito de 58%, mas provavelmente o encolhe
    • 92% dos participantes eram brancos e 4,6% negros, contra os 20% do VITAL — diversidade em pesquisa não é linha reta. E o tai chi custou 906 dólares por participante nas 24 semanas: alguém paga a sala e o instrutor
    • A camada que só existe daqui: a barreira é organização, não o remédio — o Programa Academia da Saúde existe para isso. Mas os autores só generalizam para quem consegue viajar até a aula, e o polo do Wanderley fica embaixo do morro
    • Cinco condutas, a primeira levando menos de um minuto: levantar da cadeira, andar três metros, virar, voltar e sentar. Acima de 13,5 segundos é risco — o Wanderley deu 18. E por que encaminhar para equilíbrio, não para caminhada

    Para levar no bolso: em idoso que já caiu, aula de equilíbrio duas vezes por semana durante seis meses reduz queda em mais da metade. É o efeito mais forte que esta temporada apresentou até agora. O problema é que ele só funciona pra quem consegue chegar lá.

    Na terça: o STRIDE, com 86 unidades de atenção primária e mais de cinco mil idosos — e um desenho que blindou o resultado que deu nulo e deixou desprotegido o que deu positivo.

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