Episodi

  • Dupla de artistas gaúchos explora universo e linguagem em exposição em Marselha
    Feb 21 2026

    O Fundo Regional de Arte Contemporânea de Marselha (Frac Sud), no sul da França, acolhe até 15 de novembro a exposição "Champ étoilé" (Campo estrelado), da dupla de artistas gaúchos Angela Detanico e Rafael Lain. A mostra é um mergulho na imensidão do universo, contemplando linguagem e instigando o público a refletir sobre os mistérios do cosmos.

    Daniella Franco, enviada especial da RFI a Marselha

    Composta por seis obras guiadas pela luz como elemento central, “Champ étoilé” articula peças que se entrelaçam para criar pontes entre beleza, poesia e ciência. O conjunto oferece um recorte emblemático da pesquisa de Detanico e Lain, marcada pela linguística e pela exploração da relação entre tempo e espaço.

    "É uma exposição que nos fala das nossas origens, dos seres vivos, desde o Big Bang. Mais de 13 bilhões de anos depois, essa luz que criou a vida na Terra, continua existindo. Então, essa reflexão nos convida a nos descentralizar e a compreender que, nesta cadeia ambiental e do universo, nós somos apenas um elo", diz a curadora da mostra e diretora do Frac Sud, Muriel Enjalran.

    Para ela, as obras de Angela e Rafael vão além da poesia do cosmos, abordando também o lugar dos seres humanos no mundo, algo que não é novo para os brasileiros. "O Brasil, com seus povos indígenas, reflete há muito tempo sobre essa intercorrelação dos astros, da natureza e da humanidade", ressalta.

    Angela Detanico explica que a ideia era colocar em diálogo diferentes momentos da história da luz e do universo. "As obras fazem um pouco esse passeio pelo tempo e pelo espaço, falando um pouquinho também de linguagem, que é um dos nossos temas de predileção. Então nós temos o sol, a lua, estrelas, galáxias muito distantes. A nossa ideia era realmente criar essas diferentes temporalidades", diz.

    "Para nós é importante a compreensão de que toda a matéria do universo estava, no passado, unida em um mesmo ponto. Então, tudo faz parte de um todo. Mesmo que a gente tenha a experiência e a consciência da individualidade, no fundo, nós somos todos parte de um sistema que se equilibra e que é interdependente", completa Rafael.

    Telescópios e campos de flores

    Entre as obras exibidas, está a monumental instalação "Floraison de la Lumière" (Florescimento da Luz), concebida no âmbito do Prêmio Marcel Duchamp 2024, a maior recompensa de artes plásticas e visuais da França, para o qual Angela e Rafael foram nomeados. A peça, exposta no ano passado no Centro Pompidou, em Paris, associa imagens de telescópios a fotografias de campos de flores feitas pelos artistas.

    Outro destaque da exposição é a instalação "Les Mers de lune" (Os Mares da Lua), projeções em um disco de pedras brancas, que reproduzem uma espécie de jardim zen. A instalação é acompanhada de uma etérea trilha sonora composta para uma peça de dança apresentada por Angela e Rafael em Marselha em 2013.

    Outras peças foram concebidas especialmente para a exposição "Champ étoilé" , como a luminosa tela "Souleu". A obra é uma representação do sol feita na língua provençal de Marselha. Já "Analema"é um trabalho em texto que evoca os 365 dias do ano.

    Angela e Rafael são naturais de Caxias do Sul (RS) e viveram mais de vinte anos na França, antes da recente decisão de retornar ao Brasil. Para eles, todo o trabalho desenvolvido se conecta com o país. "Tudo vem de lá e acaba lá, com essa natureza tão presente no Brasil, além desta conexão com os elementos que a gente carrega", observa Angela.

    Mostra di più Mostra meno
    7 min
  • Interpretado só por mulheres, novo álbum de Mu Carvalho ‘nasceu em Paris’
    Feb 19 2026
    "O Mundo é o Meu Jardim" é o oitavo álbum solo do pianista, tecladista, compositor, arranjador e produtor Mu Carvalho. A ideia para esse novo disco, lançado no final de 2025 em todas as plataformas digitais, “nasceu em Paris”, cidade onde o músico carioca, integrante da banda “A Cor do Som”, vive boa parte do ano. Todas as nove músicas são inéditas e interpretadas exclusivamente por mulheres. “O Mundo é o Meu Jardim” traz nove composições, alternando diferentes estilos musicais, como bossa nova, samba, jazz e pop. Mu Carvalho mostra que tem talento musical e também talento para semear parceiros e amigos. Cada música do disco tem letra de parceiros diferentes e é interpretada por cantoras diferentes. “Eu sou essencialmente um melodista. Se eu escrevi três ou quatro letras na minha vida, foi muito. Então, eu tenho um orgulho gigante de ter na minha trajetória parceiros incríveis, como Paulinho Tapajós, Aldir Blanc e Moraes Moreira, que foi meu parceiro de muitas músicas desde a época do comecinho da Cor do Som”, lembra. Há mais de cinco anos, o músico divide sua vida entre o Rio e Paris, onde passa vários meses do ano em um “cantinho bem charmoso entre o Invalides e a Tour Eiffel” para ficar mais perto de parte da família, radicada na França. “O Mundo é o Meu Jardim” reflete essas andanças e a carreira de Mu Carvalho, iniciada nos anos 1970, quando participou ao lado do irmão e baixista Dadi Carvalho da fundação da banda “A Cor do Som”. Músicas em vários idiomas O oitavo álbum solo traz música em vários idiomas: português, inglês, italiano e francês. A primeira faixa, "Je t’aime tout simplement", é uma bossa nova interpretada pela francesa Gabi Hartmann. A nova parceira também assina a letra da música. “Foi uma felicidade imensa fazer essa música com a Gabi. Eu quis colocar essa música começando o disco porque esse disco, essa ideia toda, nasceu aqui nesse cantinho na França, em Paris”, conta. Mu Carvalho não interpreta nenhuma das faixas. “A bandeira importantíssima” de fazer um álbum só de vozes de mulheres veio à tona quando ele pensou em quem poderia interpretar “Aconteceu em Búzios”, música em parceria com Tavinho Paes, escrita nos anos 1980. A faixa mais pop de “O Mundo é Meu Jardim” é interpretada pela cantora e guitarista Ana Zingoni, mulher e parceira de vida de Mu Carvalho. “Eu me reconheci muito nessa poesia, porque é a história que a gente vivia naquela época. A melodia é linda. Eu fiquei muito honrada com o convite. Mais um trabalho junto com meu parceiro de vida e de música”, diz Ana Zingoni. Segundo ela, “foi muito especial (participar do álbum) porque realmente as cantoras que ele selecionou são pessoas que eu admiro muito”. Zizi Possi interpreta samba O samba "Promessas Mis", interpretado no álbum por Zizi Possi, foi uma das últimas parcerias de Mu Carvalho com Moraes Moreira. O músico baiano, com quem o tecladista carioca começou a trabalhar ainda na adolescência, foi uma espécie de mentor da banda A Cor do Som. “Moraes é um parceiro assim da vida. Para você ter uma ideia, a primeira música, a primeira obra litero-musical que eu compus foi com ele”, confirma. “O Mundo é o Meu Jardim” também traz uma linda homenagem a Gal Costa, na música "Domingo Novo", composta em Paris. A letra é de Fausto Nilo, marcando a primeira colaboração entre os dois. Show em Paris? Mu Carvalho, que também é autor de trilhas sonoras de novelas de sucesso, nunca se apresentou em Paris, nem com “A Cor do Som”. Ele espera poder em breve fazer um show na capital francesa. “Eu estou muito empolgado com esse disco. Eu estou produzindo o vinil dele. A gente vai voltar no meio do ano e vamos ver se a gente começa a trabalhar um pouco mais por aqui. Vai ser um prazer”, antecipa. Também está no radar planos para festejar os 50 anos de “A Cor do Som”, em 2027. O último álbum da banda, o “Álbum Rosa”, vencedor do Grammy Latino, foi lançado em 2020. No mundo-jardim de Mu Carvalho há sempre vários canteiros para semear, “que tem que regar todo dia com emoção e alegria, como dizia Moraes Moreira”, conclui o músico. Clique na foto principal para ouvir a entrevista completa.
    Mostra di più Mostra meno
    12 min
  • Diversidade do vinho brasileiro conquista visitantes em feira mundial do setor em Paris
    Feb 13 2026
    A participação brasileira na Wine Paris 2026 ganhou destaque entre os expositores internacionais e deixou os produtores brasileiros otimistas. Oito vinícolas de quatro estados – Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco – marcaram presença no salão francês, encerrado na quarta-feira (11), que se consolidou como uma das maiores vitrines globais do setor. Adriana Moysés, da RFI em Paris Com apoio da ApexBrasil, as empresas exibiram a diversidade da viticultura brasileira e comemoraram a boa acolhida de compradores e especialistas europeus. Criada em 2019, a Wine Paris se transformou em um encontro obrigatório do calendário mundial do vinho, que reuniu, no ano passado, mais de 5.400 expositores de 154 países. É essa dimensão, somada ao dinamismo comercial, que tem atraído cada vez mais vinícolas brasileiras. Entre os produtores estreantes, a Salton disse estar impressionada com a magnitude do evento. O gerente de negócios internacionais da vinícola, com sede em Bento Gonçalves (RS), César Baldasso, reconheceu que a Wine Paris superou as expectativas. “A gente está totalmente surpreendido. É uma feira de altíssima qualidade, com um movimento muito grande – e um movimento de qualidade. As reuniões foram excelentes, compradores realmente interessados no Brasil. Saímos daqui certos de que voltaremos no próximo ano”, disse Baldasso. Ele também destacou o papel crescente dos espumantes brasileiros no mercado internacional. “O espumante brasileiro é um grande diferencial, o melhor espumante do hemisfério sul – e, por que não, entre os melhores quando consideramos o Velho Mundo?” Miolo reforça diversidade e aposta no futuro Também gaúcha, a Miolo participou pela segunda vez da Wine Paris. Para Lúcio Motta, líder da área de exportação, o interesse dos compradores segue forte, especialmente pelos espumantes, mas não só. “O espumante é o interesse inicial, mas os tintos e brancos têm procuras similares. Os importadores ficam impressionados com a quantidade de uvas que produzimos e com nossa capacidade de trabalhar em diferentes níveis de preço”, afirmou Motta. Durante a feira, houve um debate sobre as consequências do Acordo Comercial Mercosul–União Europeia, que, ao derrubar as tarifas de importação para zero no caso dos vinhos, pode impactar a competitividade das bebidas nacionais. Atualmente exportando para seis países europeus – França, Itália, Alemanha, República Tcheca, Suécia e Malta –, além de outros mercados pelo mundo, o representante da Miolo encara o futuro com confiança. “A preocupação existe, claro. Mas também vemos uma oportunidade. Quem ainda não exporta precisa começar a pensar nisso, porque o mercado brasileiro ficará mais competitivo. Vamos ter que buscar novos mercados e essa expansão já está no nosso horizonte há 30 anos”, disse Motta. Vinhos de Minas Gerais A Serra da Mantiqueira esteve representada pela Casa Almeida Barreto, que participou pela primeira vez de uma feira internacional. Para Jorge Almeida, a expectativa foi superada. “Muita gente está curiosa para explorar vinhos do Brasil. Trouxemos vinhos jovens, frescos, da safra 2024, sem passagem por barrica, para deixar a fruta falar mais. A altitude de 1.300 metros nos dá acidez alta e complexidade. A resposta tem sido muito positiva”, apontou Almeida. Na mesma região, a vinícola Barbara Heliodora iniciou sua produção há cerca de oito anos e chamou a atenção por ter conseguido desenvolver, em pouco tempo, vinhos complexos e longevos, segundo o sommelier Marcos Medeiros. “A Mantiqueira produz vinhos elegantes e frutados, graças à amplitude térmica. As uvas que melhor se adaptaram foram a sauvignon blanc e a syrah. Desde 2018, fazemos de um rosé delicado a uma Grande Reserva com até 24 meses em carvalho. Os franceses estão adorando – é um vinho diferente, vindo de um país tropical”, comentou o sommelier. Do Vale do São Francisco à capital francesa A pernambucana Verano Brasil mostrou na feira a singularidade da produção no Vale do Rio São Francisco, região do paralelo 8 onde é possível colher uvas o ano inteiro. O diretor comercial Evandro Giacobbo trouxe dois estilos nos rótulos apresentados. "O primeiro, mais despojado, tropical, jovem e refrescante – pensado para encantar um público iniciante. E a linha Garziera, mais tradicional, com varietais de malbec, cabernet sauvignon e chardonnay. É a jovialidade do Vale do São Francisco chegando a Paris”, celebrou. A Wine Paris 2026 ocupou nove pavilhões no Parque de Exposições da Porte de Versailles. Entre seus corredores movimentados, os produtores brasileiros encontraram não apenas compradores interessados, mas uma verdadeira oportunidade de reposicionar a imagem do Brasil no cenário internacional como um país de diversidade vitivinícola.
    Mostra di più Mostra meno
    8 min
  • O “Efeito Pinheiro”: como Lucas Braathen, o brasileiro do esqui, conquista fãs pelo mundo inteiro
    Feb 13 2026
    Ele é o novo orgulho brasileiro no esporte. Dessa vez, na neve. Mas sua fama não tem fronteiras. A RFI encontrou fãs de Lucas Pinheiro Braathen até na Eslováquia. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris Nascido em Oslo, de pai norueguês e mãe brasileira, o atleta de 25 anos é a esperança do Brasil para alcançar uma medalha olímpica inédita no esqui alpino, modalidade em que é o número dois do ranking mundial. “Esse é o maior sonho da minha vida. Eu sou muito grato por todo mundo torcendo por mim, torcendo pelo Brasil, nos acompanhando nessa jornada, e eu vou fazer tudo para trazer essa medalha para a nossa casa,” diz. O gosto pelo esporte, segundo o jovem, criado na Escandinávia, ele diz ter descoberto nas quadras de futebol do Brasil, onde costumava passar férias na infância. Torcedor do São Paulo, ele cresceu em um ambiente cercado de referências brasileiras. “O Brasil é um país que é uma mistura de várias culturas. Então, eu acho que, quando o Brasil entra no estádio, mesmo que você não seja brasileiro, você está torcendo um pouquinho pela gente,” acrescenta. Amante de música e de moda, Lucas Braathen foge dos padrões tradicionais do esqui alpino, fazendo questão de mostrar sua personalidade. Em 2023, ele surpreendeu a todos ao anunciar sua aposentadoria precoce, após entrar em desacordo com a Federação Norueguesa de Esqui sobre questões ligadas à sua imagem e liberdade de expressão. Depois disso, decidiu representar o Brasil. “Eu acho que a beleza desse momento dos Jogos Olímpicos é que é um palco universal, é um palco que todo mundo assiste. Então, para mim, é a maior plataforma que eu tenho para me expressar e trazer uma mensagem que é algo mais do que esporte. Eu só quero que as pessoas em casa, assistindo os Jogos de Inverno com as nossas cores, entendam que tudo é possível,” afirma o atleta. Lucas, que competia pela Noruega antes de defender as cores verde e amarelo, costuma comemorar suas vitórias com samba. Ele dançou e vibrou como porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina 2026. Sua imagem cativante, somada ao desempenho, atrai fãs e admiradores do mundo inteiro. Fã-Clube internacional O perfil fã-clube Lucas Brazil, no Instagram, reúne 6.500 admiradores de diversos países, de todas as idades e origens, com diferentes motivos para apoiá-lo — como explicou à RFI a eslovaca Darka Sefcik, criadora do grupo. “Ele é um esquiador brilhante, sempre foi. Mas essa história de como ele decidiu mudar e os valores que ele traz para o esporte e para a sociedade... Isso é simplesmente incrível,” disse em entrevista por telefone. “Há brasileiros em toda parte, mesmo na Europa. E toda hora chegava mais uma pessoa querendo torcer com a gente como loucos. Ou eles entram em contato pedindo informações, mesmo que entendam nada de esqui, mas se sentem, de alguma maneira, conectados. Nas competições, os brasileiros fazem perguntas sobre o esqui, é divertido. E há similaridades entre fãs eslovacos e brasileiros no esporte: uma mesma paixão”, completa. Na Eslováquia, eles chamam essa febre em torno do esquiador de “Efeito Pinheiro”. “Tem um monte de garotas que acham ele muito atraente. Ele é muito gentil, mesmo que não tenha câmeras filmando, ele é sempre amável com as pessoas. A família dele também é brilhante. Eu já os encontrei, e são pessoas muito legais,” observa. “Os fãs adoram a relação dele com a moda e a música. Para os europeus, isso é muito exótico. É uma nova era brasileira: estamos aprendendo sobre o Brasil; é algo novo, diferente, é legal”, acrescenta a torcedora. Para a juventude europeia, Lucas Braathen é fonte de inspiração. “Eu trabalho com educação, e desde a Covid temos tido momentos difíceis, com a guerra na Ucrânia, e a Europa vem passando por dificuldades, o que deixa muitos adolescentes desmotivados e sem direcionamento. E precisamos de modelos para essas crianças", aponta Darka Sefcik. "E o Lucas faz isso muito bem. Ele tem uma história fascinante, tem um propósito, ele inspira as pessoas a serem o que elas quiserem, a seguirem seus sonhos — não só jovens, mas adultos e mesmo idosos. Ver esse jovem falando sobre tolerância, inclusão, é muito importante hoje em dia”, afirma. Para Lucas, a conexão com o Brasil se reflete não apenas no patriotismo esportivo, mas na responsabilidade que ele assume de ser uma referência para novos amantes dos esportes de inverno no mundo inteiro. “Honestamente, a pressão é enorme. Represento mais de 200 milhões de brasileiros”, diz. “Para mim, esporte é uma forma de arte. É uma arte de performance. E, se você pergunta a qualquer artista qual é a coisa mais importante, é ser autêntico, ser quem eles são. Se você não é autêntico, não dá para as pessoas confiarem na sua mensagem. Então, para mim, para trazer uma mensagem e expressar o meu...
    Mostra di più Mostra meno
    7 min
  • Cinco séculos de Camões, o maior poeta da língua portuguesa
    Feb 8 2026
    Há 500 anos nascia o maior poeta da língua portuguesa, Luís Vaz de Camões e os versos que compôs criaram uma obra extraordinária, com destaque para Os Lusíadas, grande clássico da literatura portuguesa. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa No poema épico, que narra a viagem de Portugal à Índia comandada por Vasco da Gama, Camões celebra a pátria, mas também critica o poder. Na epopeia, o poeta usou uma linguagem nova considerada fundadora do português moderno. Para comemorar o 5° Centenário do nascimento de Camões, o governo de Portugal organizou exposições, ciclos de debates, palestras, congressos internacionais, publicações, prêmios, espetáculos, oficinas e concursos, entre outros, que acontecem até junho deste ano. “Celebrar o nascimento de Luís de Camões significa, antes de mais nada, reconhecer a sua atualidade. Tratando-se de alguém que nasceu há 500 anos, o mais natural é que o seu rastro tivesse já desvanecido no pó dos séculos”. Por isso, “celebrar Camões é muito mais do que homenagear um nome maior da literatura portuguesa e da literatura universal: é reconhecer a força duradoura da sua obra, cuja presença atravessa séculos, fronteiras e gerações”, ressalta José Augusto Cardoso Bernardes, catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, especialista em literatura camoniana e comissário-geral da Estrutura de Missão para as Comemorações dos 500 anos de Camões. Em sua entrevista para a RFI, o professor Cardoso Bernardes afirma que “a atualidade de Camões é impressionante, a voz do poeta vem do século 16 e chega ao século 21. Nela, encontramos o conflito entre a injustiça e a justiça. Encontramos um tema impressionantemente moderno, que é a insuficiência das palavras para exprimir a realidade, que pode ser subjetiva ou objetiva. Mas talvez a componente mais atual que existe em Camões é o apelo que ele nos faz para não nos resignarmos, para não aceitarmos aquilo que parece uma fatalidade. Lembro que Camões termina Os Lusíadas exultando os portugueses a partirem; a partirem para algum lugar, mas sobretudo a saírem de si próprios. A vocação universalista que sempre nos caracterizou está nos Lusíadas em forma de retrato profundo”, analisa. A intenção do enorme mosaico de eventos nas comemorações dos 500 anos do poeta é contribuir para a valorização do legado camoniano, promover o seu estudo e divulgação através da pesquisa, criação artística, ação pedagógica e reflexão crítica. Embora o centro da programação - que iniciou em 2024 - aconteça em Portugal, as comunidades portuguesas no mundo e os países de língua portuguesa também participam da celebração. Entre as principais iniciativas deste ano em Lisboa, destaque para a exposição No Rastro de Luís de Camões e o congresso internacional O tempo de Camões, Camões no nosso tempo, ambos na Biblioteca Nacional de Portugal, o ciclo de conferências Camões Hoje no Palácio Galveias, o prêmio Conhecer Camões, a ópera Relicário Perpétuo com libreto de Luísa Costa Gomes, no Teatro São Carlos, e a mesa-redonda As Mulheres no Tempo de Camões, na Biblioteca Nacional de Portugal. O Real Gabinete de Leitura, no Rio de Janeiro, que abrigou um ciclo de conferências sobre o poeta, recebeu do governo de Portugal a Ordem de Camões, no último dia 16. A instituição tem o maior espólio de Camões no Brasil, incluindo um dos exemplares da primeira edição de Os Lusíadas, de 1572. Língua portuguesa e Camões Teria sido a partir dos versos de Os Lusíadas que a língua portuguesa se consolidou. A obra não criou o idioma, mas elevou o português a uma das línguas mais importantes da Europa durante o Renascimento. Camões ao escrever em oitavas rimas, estruturou o português com elegância clássica e o transformou em uma língua literária de prestígio. “Os especialistas na língua de Camões reconhecem a capacidade que ele teve senão de reinventar a língua portuguesa, pelo menos lhe conferir um cunho de modernidade, de musicalidade e até de plasticidade que não existia antes dele. E faz com que os versos de Camões nos toquem de uma forma quase sensorial, para além de uma forma também emocional, e isso é uma característica que começa realmente com ele e que os poetas que vieram a seguir procuram imitar. Nós somos todos devedores desta novidade, desta frescura e modernidade que Camões trouxe para a língua que nós falamos”, contextualiza a escritora Isabel Rio Novo, autora de Fortuna, Caso, Tempo e Sorte: biografia de Luís Vaz de Camões. Como uma das figuras mais agregadoras da cultura portuguesa, Camões se transformou em símbolo da identidade nacional, tanto que o dia da morte do poeta, 10 de junho, é quando se celebra o dia de Portugal e das comunidades portuguesas. Especialista em literatura camoniana, o professor da Universidade de Coimbra, José Augusto Cardoso Bernardes comenta o ...
    Mostra di più Mostra meno
    6 min
  • Promessa brasileira nos Jogos Olímpicos de Inverno, Lucas Pinheiro Braathen vê pressão como privilégio
    Feb 8 2026
    Lucas Pinheiro Braathen foi um dos porta-bandeiras da delegação brasileira na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, na sexta-feira (6). A escolha pelo esquiador não foi à toa: ele é a principal aposta do Brasil para conquistar a medalha inédita em Olimpíadas de Inverno. O esquiador é o atual número dois do ranking mundial de esqui alpino. Nascido na Noruega, ele defende o Brasil, país natal da mãe, desde 2024, e diz que a escolha pela federação brasileira lhe trouxe mais liberdade. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão Lucas tem consciência de que a pressão é enorme. “Essa é uma responsabilidade que eu carrego todos os dias, até o dia da competição mesmo. Agora, essa pressão é um privilégio. Então eu abraço essa pressão, tento canalizar toda essa energia de alta frequência para minha performance”, afirmou em coletiva de imprensa neste sábado (7), na Casa Brasil, espaço montado pelo Comitê Olímpico Brasileiro em Milão para receber a torcida verde e amarela durante as competições. Filho de mãe brasileira e pai norueguês, Lucas cresceu entre diferentes culturas. Nasceu em Oslo, capital da Noruega, e na infância chegou a morar no Brasil. Curiosamente, esquiar passou longe de ser um sonho de criança, já que seu primeiro amor foi o futebol. Aos oito anos, de volta à Noruega, Lucas se rendeu ao esqui alpino, esporte que faz parte da identidade do país. Para o atleta, mais do que competição, é uma forma de expressão: “Para mim, o esporte é uma forma de arte, é uma arte de performance. E se você pergunta a qualquer artista o que é mais importante, [eles respondem que] é ser autêntico, ser quem eles são”. Foi justamente por sentir falta de liberdade para se exprimir que, em 2023, Lucas tomou uma decisão difícil. Até então, competia representando a Noruega e disputou os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, em 2022, pelo país nórdico. Após conquistar o título da disciplina de slalom em 2023 e ficar em quarto lugar no ranking geral de esqui alpino, anunciou sua aposentadoria devido a desentendimentos com a federação norueguesa. Meses depois, em 2024, voltou às pistas defendendo o Brasil. “Foi uma transição gigantesca. E me deixa meio emocionado olhar para trás, para essa jornada até chegar aqui em Milão vestindo nossas cores. Realmente, a sensação é de um segundo capítulo na vida. Essa parte da minha vida é uma parte com liberdade de ser quem eu sou, representar meus valores e meus sonhos verdadeiros. Não os sonhos dos outros, não os sonhos da mídia, da indústria, da minha equipe, mas os meus sonhos”, disse o esquiador. Em declaração à RFI, Lucas afirma que se sente completo nas pistas de esqui e compara a profissão de esquiador à de artista: “Eu achei nas pistas, na neve, na montanha, o meu palco, onde me sinto mais autêntico. No fim das contas, eu poderia virar um músico ou dançar, mas, para mim, o propósito que a gente tem é bem igual”. Aos 25 anos, Lucas já tem uma carreira cheia de conquistas no esqui alpino com mais de 20 pódios, oito deles representando o Brasil. Ele é o atual número dois do ranking geral da modalidade. Até o início das provas dos Jogos Olímpicos de Inverno, segue treinando na Áustria, onde mora. A estreia nas Olimpíadas será no próximo sábado (14), na cidade de Bormio. Lucas explica que a pista tem características bem específicas: “É uma pista um pouco mais fácil do que as que a gente está competindo na Copa do Mundo, mas são nas pistas mais fáceis que fica ainda mais difícil esquiar rápido. Então, essa é a arte dentro do nosso esporte: conseguir achar essa velocidade. É uma pista em que você precisa criar a força, a velocidade e a frequência sozinho”. Além de buscar a medalha inédita para o Brasil, Lucas carrega um desejo que vai além do pódio: “Eu quero sair desses Jogos como fonte de inspiração para o povo que liga para esportes, para quem não está nem aí para esportes. E, para mim, quero que as pessoas assistindo, vendo nossas cores nos Jogos Olímpicos de Inverno, entendam que tudo é possível. Não importa de onde vocês são, suas roupas, seu sotaque. O que importa é o que está por dentro. O que acontece para fora é um resultado disso”, aprofunda Lucas. Leia tambémJogos de Inverno de 2030 serão organizados nos Alpes franceses, mas COI pede "garantia financeira"
    Mostra di più Mostra meno
    5 min
  • Quatro curtas paulistas revelam a diversidade do cinema brasileiro no Festival de Clermont-Ferrand
    Feb 7 2026
    No Mercado do Filme do Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, a sessão dedicada ao cinema brasileiro é sempre um dos momentos mais aguardados pelos realizadores que chegam à França para apresentar seus trabalhos. Para muitos, é a primeira vez em que seus filmes encontram uma plateia estrangeira. Adriana Moysés, enviada especial a Clermont-Ferrand Quatro curtas paulistas selecionados pela associação Kinoforum, em parceria com a Spcine, foram exibidos na confortável sala George Conchon, um dos espaços mobilizados durante o festival. O programa abriu com "Xicas", de Asaph Luccas, que recebeu os aplausos mais calorosos da manhã. Na sequência vieram "Madrugada no Edifício Terezinha", de Cesar Cabral e Renato José Duque; "Sandra", estreia na direção da atriz Camila Márdila; e, encerrando o bloco, "Replikka", de Heloisa Passos e Piratá Waurá. Como é tradição do festival, a sessão não se limitou à exibição dos filmes. Depois das projeções, o público participou de uma conversa aberta com os realizadores, que detalharam processos de criação e escolhas estéticas. O destaque inicial ficou com "Xicas", curta que marcou a segunda participação de Asaph Luccas no festival francês e seu quarto trabalho na direção. A recepção calorosa refletiu o interesse do público pelo modo como o filme aborda identidades travestis sob uma perspectiva afetiva e política. A narrativa se desenvolve durante os preparativos do carnaval, e a realizadora, que até agora só havia assinado ficções, explicou o que exigiu o registro documental. “O nosso filme é costurado através da história de Chica Manicongo, que foi a primeira travesti não indígena do Brasil, trazida escravizada do Congo. Essa história se mescla muito com a nossa história de Brasil, com a nossa história de identidade de gênero. (...) Temos mulheres trans na política, mulheres trans médicas, mulheres trans que trabalham com prostituição. Foi muito importante mostrar como nós somos múltiplas.” Asaph Luccas espera que "Xicas" represente um voto de futuro para as identidades trans, para que elas estejam presentes em todas as esferas, no Brasil e no mundo, num momento em que disputam espaços políticos. “É um filme muito querido para mim e muito importante para todas as travestis que participam dele. Eu realmente acredito que o cinema serve como essa ferramenta para transformação social e para trazer luz para histórias marginalizadas e muitas vezes invisíveis.” Entre estética e experimentação O segundo filme da sessão foi "Madrugada no Edifício Terezinha", dirigido por Cesar Cabral em parceria com Renato José Duque. O curta chamou a atenção do público pela mistura entre animação stop motion e elementos filmados, criando uma estética híbrida incomum para o gênero terror. O diretor explicou como essa abordagem nasceu e como buscou provocar tensão visual combinando o real e o animado. “A ideia foi misturar imagens reais com animação. (...) O filme tem um boneco caminhando, mas o olho dele foi filmado com um ator e o encaixe desse olho feito em pós-produção. O olho transmite uma emoção muito forte. Trazer esses elementos do real num boneco foi o que eu busquei para criar essa tensão.” A animação despertou curiosidade no público presente, e Cesar Cabral falou sobre as expectativas de circulação do curta, que chegou a Clermont-Ferrand recém-finalizado. “O filme está estreando aqui no mercado. Sempre existe um interesse muito grande, até porque o gênero terror cresce no mundo. Trazer algo que tem um diferencial, que é a animação junto com esse universo, está sendo bem positivo. Ele acabou de ficar pronto, a gente terminou há duas semanas para apresentar aqui em Clermont, que era uma oportunidade muito importante. Agora seguimos na carreira dos festivais.” O terceiro filme da sessão brasileira de curtas foi "Sandra", estreia de Camila Márdila como diretora e roteirista. Conhecida pelo trabalho como atriz, ela conta que a vontade de estar atrás das câmeras vinha de muito antes, influenciada tanto pelo teatro quanto pela experiência em diferentes áreas do audiovisual. Ela explica como decidiu dar esse passo e o que significou dirigir seu primeiro filme. “Eu sempre tive esse desejo. Pela minha formação no teatro, onde trabalho há muitos anos coletivamente, e também pela faculdade de comunicação social, onde transitei por várias áreas do audiovisual. Eu já estava há um tempo querendo elaborar um roteiro para exercitar essa direção, estar por trás das câmeras. Não tinha vontade de atuar no meu primeiro filme. Queria participar de todos os processos e entender desafios, especialmente na pós-produção, que era novidade para mim. Foi um processo muito prazeroso.” Sem se deter nos bastidores da produção, Camila volta o olhar para a continuidade do trabalho: ela já prepara um novo curta, concebido para ser realizado com equipe ...
    Mostra di più Mostra meno
    7 min
  • Brasileiros que empreendem no exterior: pesquisa revela perfil, obstáculos e estratégias para vencer
    Feb 6 2026
    Quase 5 milhões de brasileiros vivem no exterior (4.996.951), segundo a estimativa mais recente do Ministério das Relações Exteriores, de 2023. Quase metade (45%) está nos Estados Unidos, cerca de 34% na Europa e 13% na América do Sul, mas menos de menos de 1% escolheu a África. Pesquisador da diáspora brasileira, o PhD da Unigranrio Roberto Falcão desvenda o que aprendeu sobre o empreendedorismo brasileiro no exterior. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris A maioria desses brasileiros saiu em busca de melhores condições de vida, para fugir da violência e da decepção política. Normalmente, as pessoas que emigram têm disponibilidade para viajar, boa adaptação a línguas, maior autonomia e não temem tarefas altamente desafiadoras. Alguns dos ramos mais escolhidos pelos brasileiros para empreender em outros países são culinária, estética e construção. Há oportunidades de mercado no chamado nicho étnico e também na venda para o consumidor local. A capoeira, por exemplo, está presente em 180 países. Churrascarias de rodízio, venda de produtos como açaí e pão de queijo e serviços como alisamento ou depilação à brasileira são outros exemplos recorrentes. Um dos atrativos é a saudade de casa. Do ponto de vista do financiamento, a maioria dos pequenos e médios negócios fundados por brasileiros no exterior depende de capital próprio ou de linhas de crédito disponíveis, quando o empreendedor já está integrado ao país escolhido. Esse é um retrato de quem são os brasileiros e onde eles formaram suas bases para empreender ao redor do mundo, segundo pesquisa da Unigranrio e da UFF (Universidade Federal Fluminense), apoiada pela FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Ao longo de uma década, o professor e sua equipe entrevistaram mais de 400 empreendedores de diversos perfis. Falcão esteve em Paris na terça-feira (3), onde deu uma palestra a convite da Câmara de Comércio do Brasil na França (CCBF) sobre o que leva esses brasileiros a vencer em outro país. “O primeiro passo para não fracassar é entender a legislação, as regras locais, a regulamentação, conhecer o público, os hábitos do consumidor local e, sobretudo, falar bem a língua para o atendimento. Se você tem uma loja, um negócio, e não falar bem o idioma local, será um entrave para empreender”, aponta Falcão. Em seu projeto de pesquisa, ele analisa o empreendedor, seu nível de educação e de informação, se ele fala línguas, o ambiente institucional e a regulamentação do país. No caso da empresa, a equipe busca entender possíveis diferenciais para conseguir se posicionar bem no mercado. Além disso, é preciso ter uma boa gestão, investir em marketing e divulgação do produto ou serviço, como em qualquer negócio. “O brasileiro é caracterizado como um povo que se comunica muito bem, tanto que ele tem muita habilidade, em geral, na parte de redes sociais e de marketing digital”, aponta. “Ele também é caracterizado como uma pessoa muito versátil, que se adapta a diversos tipos de trabalho, em diversas condições, e é multitarefa. Além disso, a cordialidade: o brasileiro sorri”, completa. Mas há um lado que dá menos orgulho. “Talvez nós tenhamos características negativas também. Emergiu na nossa pesquisa algo relacionado à sabotagem entre negócios, um jogando areia no negócio do outro ou criando denúncias falsas.” O sucesso no novo ambiente pode ser medido pelo grau de produtividade, mas também pela saúde e pela felicidade. Esse é o tripé da sustentabilidade de carreira, explica Falcão, antes mesmo do dinheiro. Conhecer a legislação e vencer a burocracia O mineiro Rodrigo Pinho Aragão sonha em abrir uma empresa de consultoria e contou à RFI sobre a dificuldade com a burocracia. “Eu vim para a França com visto de trabalho, pelo fato de ter diploma francês. Mas o visto não permite a criação de uma empresa ou abertura de uma conta empresarial”, lamenta. “Para poder criar a empresa, tenho que fazer a transição de visto e justificar a viabilidade econômica do projeto que desejo criar”, continua. Na França, há diferentes tipos de vistos de empreendedorismo: o mais focado em profissões liberais, comerciais e artesanais, e outro para empresas de maior porte, que visam contratar pessoas e ter escala. “Mas, nesse caso, tem que justificar um investimento de € 30 mil com disponibilidade imediata para investir na empresa. É um pouco a situação do ovo ou da galinha: você precisa justificar investimento em uma empresa que não existe e, para a empresa existir, você precisa do visto”, afirma. “Ao mesmo tempo, você precisa fazer com que a empresa exista: imaginar como ela vai ser, pensar nos clientes, no seu plano de negócios. Criar uma empresa já é uma trajetória desafiadora e, além disso, você precisa encontrar os caminhos, institucionalmente falando, para fazer...
    Mostra di più Mostra meno
    7 min