Episodi

  • O que faz uma comida ficar na memória? Marlene Vieira
    Jan 21 2026
    Uma conversa com Marlene Vieira sobre sabor, identidade, liderança e experiência Durante muito tempo, a cozinha portuguesa foi um lugar de repetição. Um território de receitas herdadas, de gestos transmitidos, de sabores reconhecíveis. Um lugar de conforto. Mas também, muitas vezes, de pouca pergunta. Hoje, num pequeno balcão em Lisboa onde tudo é visível — as mãos, o fogo, o detalhe, o erro possível —, Marlene Vieira trabalha precisamente no sentido oposto: cozinhar como quem pergunta. Faz agora um ano que o restaurante Marlene recebeu a sua estrela Michelin. Um ano não é muito tempo. Mas é tempo suficiente para perceber que, neste caso, a estrela não é um fim. É apenas um ponto de passagem. A memória antes da técnica A história de Marlene não começa na alta gastronomia. Começa numa cozinha grande, barulhenta, no Minho. Começa numa avó que cozinhava para mais de vinte pessoas por dia. Num fogão a lenha. Em tachos que ficavam a manhã inteira ao lume. Em cheiros de couve galega acabada de cortar, de enchidos, de sopa sempre a apurar. É daí que vem a sua primeira escola: a cozinha como lugar de comunidade. Antes de ser profissão, foi ambiente. Antes de ser carreira, foi cheiro. Antes de ser técnica, foi memória. E talvez por isso, quando hoje fala de alta cozinha, Marlene fala sobretudo de produto, de tempo, de respeito. Fala menos de espetáculo e mais de substância. “Quanto melhor é o produto, menos transformação precisa.” É uma frase simples. Mas é também uma posição filosófica. O rigor e o erro A cozinha profissional ensinou-lhe outra coisa: o rigor. Durante anos, Marlene trabalhou em ambientes onde o erro não era tolerado. Onde havia gritos, castigos, humilhação. Onde a disciplina era imposta mais pelo medo do que pela compreensão. Hoje, o seu trabalho é quase o oposto: criar sistemas para que o erro não aconteça. Não por obsessão com o controlo, mas por respeito pelo cliente. Num restaurante com estrela Michelin, um prato não pode sair “quase bem”. Ou está certo, ou não sai. Isto muda tudo: a forma como se trabalha, como se lidera, como se comunica. A função do chefe deixa de ser apenas cozinhar. Passa a ser organizar pessoas, processos e expectativas. Liderar é estar sozinho Marlene fala disso sem romantismo: liderar é solitário. Há uma distância inevitável entre quem decide e quem executa. Há dias em que é preciso ser firme. Há dias em que se erra. Há dias em que se pede desculpa. Ela própria diz que às vezes é vista como “um dragão”. Mas os números contam outra história: subchefes que estão com ela há 10, 12, 15 anos. Equipas que ficam. Talvez porque, por baixo do rigor, haja uma coisa mais rara: justiça. O preço real das coisas A inflação, o preço do peixe, do marisco, da energia, da renda, dos salários. A restauração é hoje um negócio de margens frágeis. Marlene explica com um exemplo simples: há cinco anos, o quilo do carabineiro custava pouco mais de 30 euros. Hoje, pode passar os 100. O cliente vê o preço no prato. Raramente vê tudo o que está por trás. E no entanto, mesmo casas cheias podem tornar-se inviáveis se não se adaptarem. A palavra-chave é essa: adaptação. Tirar pratos. Mudar cartas. Ajustar modelos. Sobreviver. A cozinha como identidade Há outra preocupação que atravessa toda a conversa: a perda de referências. Cozinha-se menos em casa. Encomenda-se mais. Come-se mais rápido. Mais igual. Mais industrial. As novas gerações podem crescer sem saber o sabor de um bom caldo, de um cozido lento, de uma comida que levou horas a fazer. E aqui entra um paradoxo curioso: são os turistas que, muitas vezes, vêm salvar a cozinha portuguesa. São eles que procuram a autenticidade. Que querem o peixe simples, o azeite bom, o alho, os coentros, o poejo. “Eles levam os nossos sabores para o mundo.” E isso, diz Marlene, não se franchiza. Nova Iorque e a descoberta Aos 20 anos, Marlene foi para Nova Iorque. Sem falar inglês. Para uma cozinha portuguesa. A trabalhar 15 horas por dia. Foi lá que percebeu duas coisas: Que a cozinha portuguesa era muito mais rica do que imaginava.Que podia existir cozinha tradicional em ambiente de luxo. Essa ideia nunca mais a largou. Hoje, o seu restaurante é isso mesmo: um lugar de alta exigência sem cerimónia inútil. Onde se pode entrar de ténis. Onde o foco está no que está no prato. Criar é combinar gavetas Quando fala de criatividade, Marlene não fala de inspiração súbita. Fala de gavetas mentais: sabores, texturas, memórias. Fala de criar primeiro na cabeça. De combinar coisas que já lá estão. De às vezes perceber, tarde demais, que uma ideia óbvia só apareceu agora. Fala muito de texturas. Porque a textura muda o sabor. Um bacalhau passado do ponto já não sabe ao mesmo bacalhau. Criar é, muitas vezes, afinar milímetros. Uma estrela, muitas pessoas Marlene foi a primeira mulher em 30 anos a receber uma ...
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    1 ora e 2 min
  • O que é um bom livro para ler? Ana Daniela Soares
    Jan 14 2026

    Num tempo em que quase tudo é reduzido a título, excerto ou opinião instantânea, a pergunta pode parecer ingénua: o que é um bom livro para ler?

    Mas talvez seja precisamente por isso que ela importa tanto.

    Ler exige hoje aquilo que se tornou raro no espaço público: tempo, atenção, silêncio e disponibilidade para escutar o outro. Um livro não compete bem com a pressa. Não cabe em trinta segundos, não se resume num post e não se explica em três frases. E, ainda assim — ou talvez por isso mesmo — continua a ser um dos últimos lugares onde o pensamento pode amadurecer sem pedir desculpa.

    A conversa com Ana Daniela Soares, no mais recente episódio do Pergunta Simples, parte dessa pergunta simples para uma reflexão mais ampla sobre leitura, empatia e responsabilidade cultural. Não é uma conversa sobre tendências editoriais nem sobre listas de recomendações. É uma conversa sobre critérios.

    A história antes do estilo

    Para Ana Daniela Soares, a resposta começa sem rodeios: um bom livro tem de contar uma boa história.

    Não precisa de exibicionismo formal nem de complexidade gratuita. Pode ter uma escrita simples, limpa, direta — desde que haja história. Um livro que é apenas um exercício de estilo pode impressionar por momentos, mas raramente fica.

    Esta defesa da história não é conservadora nem simplificadora. Pelo contrário: é uma defesa da inteligibilidade. Uma boa história organiza o mundo, cria sentido, permite ao leitor entrar. Mesmo a escrita mais experimental precisa de um eixo que a sustente. Sem ele, o livro fecha-se sobre si próprio.

    O que faz um livro ficar

    Nem todos os livros que são publicados resistem ao tempo. A maioria desaparece com a corrente — não por falta de mérito, mas porque o tempo é um juiz implacável. Os livros que ficam tendem a partilhar um traço menos óbvio do que o talento: empatia.

    Ao longo de quase duas décadas a entrevistar escritores, Ana Daniela Soares identifica esse padrão com clareza. Os grandes autores são, regra geral, profundamente atentos ao humano. Observam, escutam, tentam compreender o outro — mesmo quando escrevem ficção. Essa empatia não é sentimentalismo; é método. É a capacidade de olhar para fora de si, de manter a “janela aberta para a rua”.

    É também por isso que tantos grandes livros parecem falar do presente antes de o presente se tornar evidente. A literatura funciona como radar. Capta movimentos subterrâneos da sociedade, conflitos ainda difusos, tensões que só mais tarde se tornam notícia. Quando a realidade explode, muitas vezes o livro já lá estava.

    Ler no tempo do algoritmo

    Num ecossistema mediático dominado pelo algoritmo, pela velocidade e pela simplificação, a leitura longa tornou-se um gesto quase contracultural. Hoje pede-se ao leitor que decida rápido, que consuma rápido, que passe à frente se algo exige esforço.

    Mas um livro não funciona assim. Exige insistência. Exige entrega. Exige, sobretudo, a liberdade de largar — e de regressar mais tarde. Há livros que não são para um determinado momento da vida. E isso não os torna menores.

    Ler tudo não significa ler bem. O valor está na variedade, no risco, na disposição para sair do confortável. E também na capacidade de reconhecer quando um livro não nos está a dizer nada — sem culpa excessiva, mas com honestidade.

    O risco de deixarmos de ler a sério

    A pergunta final é talvez a mais inquietante: o que acontece se deixarmos de ler a sério?

    A resposta não é abstrata. Há consequências cognitivas, emocionais e culturais. O cérebro muda. A capacidade de atenção diminui. A empatia enfraquece. A compreensão do outro torna-se mais pobre.

    Ler não é apenas entretenimento. É treino. É exercício mental. É uma forma de aprender a viver com complexidade sem fugir dela. Uma sociedade que deixa de ler com tempo e exigência empobrece — não apenas culturalmente, mas democraticamente.

    Um critério simples, uma exigência alta

    No fim, a resposta à pergunta inicial é simples — e exigente.

    Um bom livro é aquele que conta uma boa história, nasce da empatia, resiste ao tempo e nos obriga a parar. Não para escapar ao mundo, mas para o compreender melhor.

    Num tempo acelerado, ler continua a ser uma forma de resistência.

    E talvez, ainda, uma das formas mais profundas de comunicação que nos restam.

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    49 min
  • Qual é o papel da arte na conversa pública? Rui Melo
    Jan 7 2026
    Escuta, empatia , arte, polémica e comunicação

    Porque é que ouvir se tornou tão difícil? No Pergunta Simples, a conversa com Rui Melo cruza teatro, polémica e criação artística para refletir sobre escuta, mudança de opinião e o lugar da arte na discussão pública.

    No mais recente episódio do Pergunta Simples, Rui Melo passou pelos principais temas do seu trabalho artístico e pelas ideias que têm marcado a sua reflexão pública sobre comunicação, escuta e o papel da arte na sociedade contemporânea.

    Ator, encenador, músico e argumentista, Rui Melo está atualmente em cena com a peça “Arte”, de Yasmina Reza, um texto centrado na amizade, no desacordo e na dificuldade de aceitar o ponto de vista do outro. A peça serviu como ponto de partida para uma conversa mais ampla sobre a forma como lidamos com opiniões divergentes, tanto no espaço público como nas relações pessoais.

    Logo no início da conversa, Rui Melo afirmou que um dos maiores problemas do nosso tempo é a perda da capacidade de ouvir. Para o ator, ouvir não é apenas escutar palavras, mas estar genuinamente disponível para mudar de opinião quando confrontado com novos argumentos ou factos. Essa disponibilidade, defende, tornou-se rara numa sociedade cada vez mais rígida e polarizada.

    A conversa passou depois para a forma como o debate público se transformou nos últimos anos. Rui Melo criticou a ideia de que todas as opiniões têm o mesmo peso, independentemente do conhecimento ou da experiência de quem as emite, e sublinhou que a proliferação dessa lógica dificulta o diálogo e a aprendizagem. As redes sociais, acrescentou, não criaram este fenómeno, mas amplificaram-no, dando visibilidade a discursos que antes ficavam circunscritos a espaços mais limitados.

    No plano artístico, Rui Melo defendeu uma visão da arte como espaço de provocação e fricção. Para si, a função da arte não é confortar nem agradar, mas provocar um efeito emocional e intelectual, mesmo que isso implique desconforto ou polémica. É nesse enquadramento que surge a sua participação em projetos que suscitaram debate público.

    Ao falar do trabalho em “O Arquiteto”, Rui Melo fez questão de sublinhar que se trata de uma obra de ficção e não de um documentário. O objetivo, explicou, nunca foi oferecer respostas fechadas, mas levantar questões e incentivar a discussão sobre temas sensíveis, como o abuso de poder, o assédio ou o silêncio coletivo em torno de determinados assuntos. As reações opostas ao projeto — críticas por ir longe demais e por não ir suficientemente longe — foram, para si, um sinal de que a discussão estava a acontecer.

    A conversa abordou também os limites da escuta. Rui Melo reconheceu que nem todas as opiniões merecem diálogo e que existem fronteiras pessoais que não está disposto a ultrapassar, sobretudo quando o discurso do outro não procura diálogo ou aprendizagem, mas apenas provocação. Ainda assim, distinguiu essas situações do debate genuíno, que pressupõe escuta mútua e abertura.

    No contexto profissional, o ator descreveu o trabalho artístico como um processo de afinação constante: de ritmo, de tom e de relação com o outro. A chamada “química” entre pessoas, afirmou, não é um dado fixo, mas algo que se constrói através da escuta, da atenção e da disponibilidade para ajustar.

    Ao longo do episódio, Rui Melo regressou várias vezes à ideia de maturidade e dúvida. Citando uma canção que o marcou, afirmou sentir-se numa fase da vida em que as certezas caducam — não como sinal de fragilidade, mas como consequência natural de quem continua disponível para aprender.

    A conversa terminou sem conclusões fechadas, mas com uma ideia transversal a todos os temas abordados: comunicar bem exige tempo, escuta e a capacidade de aceitar que o outro pode ter razão. Num contexto marcado por respostas rápidas e posições rígidas, essa atitude surge como um exercício cada vez mais raro – e cada vez mais necessário.

    Uma conversa para ouvir devagar.

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    52 min
  • Contas-me uma boa história? Rui Cardoso Martins [ESSENCIAL]
    Dec 31 2025
    No Fim do Ano, Uma Conversa Sobre o Que Está em Causa Com Rui Cardoso Martins, no Pergunta Simples No último dia do ano, o Pergunta Simples oferece uma conversa que nos obriga a parar, escutar e pensar. Num tempo de urgências e distrações, Rui Cardoso Martins senta-se ao microfone para falar da única coisa que nunca sai de moda: a palavra — e tudo o que ela transporta. Escritor, cronista, argumentista, dramaturgo, repórter de guerra e professor universitário. Rui é um dos mais versáteis criadores da língua portuguesa. Um faz-tudo da escrita, como diz de si mesmo, capaz de passar do teatro à televisão, da reportagem à literatura, do humor à tragédia — sem perder a integridade, nem a humanidade. Esta conversa percorre décadas de jornalismo, atravessa fronteiras geográficas e morais, revisita tribunais e zonas de guerra, e detém-se naquelas perguntas que importam sempre: o que está em causa aqui? O que fazemos com o que vemos? Como escrevemos a memória? A Escrita como Resistência Rui começou no jornalismo nos anos 90, no nascimento do jornal Público. Foi repórter nos Balcãs durante o cerco de Sarajevo, embarcou no Lusitânia Expresso rumo a Timor, e cobriu as primeiras eleições livres na África do Sul. Testemunhou a História em carne viva — e sobreviveu a ela escrevendo. Um olhar atento, uma ironia serena, e uma linguagem afinada como um motor de avião: porque escrever mal, diz ele, pode ser mais perigoso do que um mecânico incompetente. Do jornalismo passou para a ficção, sem nunca abandonar o rigor. As crónicas judiciais Levante-se o Réu revelaram o teatro trágico e grotesco da justiça portuguesa, num tom que une Fernando Namora e Monty Python. A sua literatura — premiada e traduzida — transporta o peso da experiência, mas também a leveza de quem sabe rir do absurdo. Rui escreve como quem repara o mundo. De madrugada, antes que os Pokémons acordem, com uma folha branca como animal de companhia. O tempo da escrita é anterior ao ruído, à velocidade, à obrigação. É o momento em que a linguagem ainda não foi contaminada. A Memória e o Corpo da Palavra A entrevista percorre também o terreno íntimo da memória. Rui fala do papel dos cadernos, dos rituais, dos mestres como Cardoso Pires e Lobo Antunes — e da descoberta inesperada de que, sim, talvez seja mesmo um escritor. Há pudor, mas não pose. Há humor, mas não cinismo. Há sobretudo uma preocupação com a precisão: “tudo o que acontece no mundo passa pela linguagem”, diz ele. E acrescenta: quando a mentira tem o mesmo peso da verdade, estamos à beira da desgraça. A sua voz não é a de um moralista, mas a de um observador treinado. Rui descreve Sarajevo como um lugar onde o vizinho passou a ser o inimigo. Fala de genocídio, da escolha de um lado — e da ilusão de neutralidade em tempos de barbárie. Fala da Avenida dos Snipers, dos campos de futebol transformados em cemitérios, da ausência de cães, de gatos, de calor. A sua literatura é feita dessa matéria: o choque entre o que era e o que se tornou. Do Humor à Tragédia: a Responsabilidade de Dizer Criador de frases como o célebre “Penso eu de que…”, Rui ajudou a moldar o humor político com Contra-Informação, Herman Enciclopédia e Conversa da Treta. Mas vê nessa sátira algo mais profundo do que entretenimento. O humor é uma forma de resistência. Uma forma de pensar por dentro da linguagem, de devolver o ridículo ao poder, de encontrar o ponto fraco do discurso dominante. Fala da responsabilidade de quem escreve. De como se pode usar a palavra para curar ou para envenenar. De como a verdade se perde quando todas as versões da realidade parecem ter o mesmo valor. E de como o jornalismo, quando feito com rigor, ainda pode ser um antídoto para a manipulação. O Mundo que Vem A conversa fecha com uma pergunta que nos interpela a todos: a Europa está pronta para viver sozinha? Num tempo de guerras em curso, de democracias frágeis e de redes que amplificam o boato, Rui não tem ilusões: ou lutamos pela liberdade, pela educação, pela justiça, ou perdemos. A escrita, nesse contexto, é mais do que estética — é ética. No fim do episódio, Rui confessa: só quer contar histórias úteis. Úteis no sentido mais profundo da palavra. Histórias que sirvam para entender o mundo e para não esquecer. Histórias que transformem o banal em universal, o pequeno em essencial. Porque, como diz, não há escritor sem memória. E não há futuro sem narrativa. Este episódio foi originalmente publicado no Pergunta Simples, mas regressa agora como parte da nossa coleção Essencial. Uma conversa profunda, com valor reconhecido. Ouça ou reveja com tempo: continua atual, necessário e transformador. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar. 0:12 Rui Cardoso Martins: Jornalista, Escritor e o Faz-Tudo da Palavra Neste episódio, vamos aprender a ...
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    50 min
  • Para que serve a literatura quando a realidade é demasiado dura? Tânia Ganho
    Dec 24 2025
    Escrever no escuro: Tânia Ganho, a linguagem e o dever de olhar Há escritores que procuram a luz. Outros preferem começar no escuro. Não por gosto do choque, mas porque sabem que há zonas da experiência humana que só se tornam visíveis quando se abdica do conforto. A escrita de Tânia Ganho pertence claramente a este segundo grupo. Ao longo da conversa no Pergunta Simples, torna-se evidente que não se trata de uma escolha estética nem de uma estratégia narrativa. É uma posição ética: escrever é olhar para aquilo que existe, mesmo quando é incómodo, perturbador ou socialmente evitado. Nos seus livros — e no modo como fala deles — a literatura não surge como refúgio, mas como instrumento de análise. Ganho escreve sobre violência, abuso, maternidade falhada, infância em risco, sistemas de justiça imperfeitos. Não para moralizar. Não para oferecer respostas simples. Mas para tornar visível uma complexidade que tende a ser empurrada para fora do discurso público. A escrita como trabalho — e não como epifania Um dos pontos mais consistentes da conversa é a recusa da ideia romântica do escritor inspirado. A escrita, diz Ganho, é trabalho. Trabalho disciplinado, solitário, muitas vezes árido. Há momentos de fluxo, mas são exceção. O essencial acontece sentado, a cortar, reescrever, eliminar palavras, escolher sinónimos, testar frases até ao limite. Este rigor não é preciosismo. É resistência. Num tempo em que a linguagem se acelera, se empobrece e se uniformiza — em parte pela delegação crescente da escrita em ferramentas automáticas — insistir na escolha exata das palavras é um ato deliberado de diferenciação humana. A preocupação com a inteligência artificial atravessa a conversa não como alarme tecnofóbico, mas como constatação prática. Na tradução literária, onde Ganho trabalha há décadas, as ferramentas automáticas já produzem resultados aceitáveis ao nível estrutural. O problema está noutro lugar: o vocabulário limitado, a previsibilidade sintática, a perda de nuance. A língua funciona, mas deixa de pensar. Escrever, neste contexto, torna-se também um gesto de defesa da linguagem como espaço de liberdade e não apenas de eficiência. Traduzir é recriar — e assumir a imperfeição A tradução literária surge como um dos campos mais reveladores da conversa. Longe da ideia de equivalência perfeita, Ganho insiste num princípio clássico da teoria da tradução: toda a tradução é, por definição, imperfeita. E é precisamente por isso que exige criatividade. Traduzir trocadilhos, humor, ambiguidades culturais implica reconstruir, adaptar, escolher. Às vezes, mudar nomes de personagens secundárias. Às vezes, sacrificar a literalidade para salvar o efeito. É um trabalho que combina técnica e intuição, fidelidade e traição controlada. Esta visão coloca a tradução no centro da criação literária, e não na sua periferia. Tradutores não são mediadores invisíveis: são autores de segunda ordem, responsáveis por decisões que moldam profundamente a experiência de leitura. Ler devagar num mundo rápido A leitura ocupa um lugar central no pensamento de Tânia Ganho — não apenas como hábito pessoal, mas como prática social ameaçada. Ler exige tempo, concentração, disponibilidade emocional. Exige parar. E parar tornou-se uma raridade. Ao longo da conversa, surge uma defesa clara do direito de abandonar livros, de mudar de leitura conforme a fase da vida, de aceitar que nem todos os textos servem todos os leitores em todos os momentos. Longe do moralismo cultural, esta abordagem devolve à leitura uma dimensão viva e plural. Nesse contexto, livreiros, bibliotecários e clubes de leitura ganham uma importância renovada. São mediadores num mercado saturado, curadores num mar de títulos, guias num tempo de excesso de escolha e escassez de atenção. Violência contra crianças: o que preferimos não ver O momento mais duro da conversa surge quando Ganho fala de violência doméstica e sexual sobre crianças. Não como abstração, mas como realidade recorrente. A referência direta ao trabalho da Polícia Judiciária — e à frequência com que são detidos abusadores — desmonta a ilusão de excecionalidade. A dificuldade social, sublinha, está em aceitar que o mal não se apresenta sempre como monstruoso. Pode ser bem-vestido, integrado, respeitável. Essa dissonância cognitiva leva muitas vezes à negação, ao silêncio, à recusa de olhar. É aqui que a literatura assume, para Ganho, uma função insubstituível: obrigar à atenção prolongada. Não ao choque momentâneo, mas à compreensão lenta. Um romance não resolve o problema, mas pode criar consciência. Pode alterar comportamentos marginais — como a exposição excessiva de crianças nas redes sociais — e introduzir dúvida onde antes havia automatismo. Imagem, verdade e desconfiança A conversa cruza ainda fotografia, vídeo e ...
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    55 min
  • Que lições do palco ajudam a comunicar melhor no dia a dia? Diogo Infante
    Dec 17 2025
    Quando a comunicação deixa de ser talento e passa a ser trabalho Há pessoas que parecem ter nascido com presença. Quando falam, o silêncio organiza-se à volta delas. Quando entram numa sala, sentimos qualquer coisa mudar. A tentação é chamar a isso carisma. Ou talento. Ou dom. A conversa com Diogo Infante desmonta essa ideia logo à partida. Antes da presença houve timidez. Antes da voz segura houve dificuldade em falar. Antes do palco houve desajuste, deslocação, a sensação de não pertencer completamente ao sítio onde se estava. O teatro não surgiu como ambição, mas como solução. Uma forma de aprender a comunicar quando comunicar não era natural. Um lugar onde a palavra podia ser ensaiada, onde o corpo podia ganhar confiança, onde o erro não era um fim — era parte do processo. Talvez por isso a noção de presença apareça nesta conversa de forma tão concreta. Não como algo abstrato, mas como um estado físico e relacional. Presença é perceber se o outro está connosco. Presença é sentir quando uma frase chega — ou quando cai no vazio. E esse vazio, quando acontece, dói. Não por vaidade. Mas porque revela uma falha de ligação. Há um momento particularmente revelador: quando fala do silêncio do público. Não o silêncio atento, mas aquele silêncio inesperado, quando uma deixa cómica não provoca riso. “Aquilo dói na alma”, diz. E nessa frase está tudo o que importa saber sobre comunicação: falar é sempre um risco. O outro não é cenário. É parte ativa do que está a acontecer. A conversa avança e entra na exposição pública. Aqui, Diogo Infante faz uma distinção interessante: entre a pessoa privada e a figura pública. Não como máscara, mas como responsabilidade. Há um “chip” que se ativa — uma disciplina interna que permite aguentar expectativas, projeções, rótulos. A maturidade está em não confundir esse papel com a verdade interior. É uma ideia útil num tempo em que confundimos visibilidade com autenticidade. Falamos também de televisão, cinema, teatro. Dos ritmos diferentes. Das exigências técnicas. Mas a ideia central mantém-se: a verdade não depende do meio. Depende da intenção. Comunicar para milhões não dispensa rigor. Simplificar não é empobrecer. Outro ponto forte da conversa é a vulnerabilidade. Num espaço público cada vez mais dominado por certezas rápidas e discursos blindados, assumir fragilidade continua a ser um gesto arriscado. Mas aqui a vulnerabilidade surge como força tranquila. Como forma de aproximação. Como autoridade que não precisa de se impor. Quando a conversa entra no território da família, tudo ganha outra densidade. Dizer “amo-te”. Pedir desculpa. Estar disponível. A comunicação íntima aparece como o verdadeiro teste. Se falhamos aí, o resto é técnica. E só técnica não chega. No plano mais largo, surge a pergunta maior: para que serve a arte num tempo acelerado, ruidoso, polarizado? A resposta não vem em tom grandioso. Vem simples: para nos salvar. Não salvar o mundo. Salvar-nos a nós. Da pressa. Do cinismo. Da incapacidade de escutar. No fim, fica uma conclusão exigente: a presença não é talento — é trabalho. A comunicação não é performance — é relação. E a verdade, quando existe, dá sempre algum trabalho a dizer. Talvez seja por isso que esta conversa não é apenas sobre teatro. É sobre como falamos, como ouvimos e como estamos uns com os outros. E isso, hoje, é tudo menos simples. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar. 0:00 Abertura do Episódio e a Angústia do Impostor Muitos de nós temos o síndroma de um impostor. Achamos sempre que que somos uma fraude, que na verdade, estamos só a replicar uma mentira. Não estamos a ser suficientemente verdadeiros ou estamos a repetir um padrão de comportamento que já fizemos. Achamos sempre que não estamos à altura do desafio. 0:15 É muito doloroso. É por isso que as pessoas acham que isso ser ator é. É maravilhoso, mas é um processo de grande angústia, angústia criativa, porque estamos perante a expetativa. Tu já estás a pensar aí, a peça do do clube dos poetas mortos, e eu e eu começo a pensar, AI, meu Deus, se aquilo for uma merda, o que é que eu faço, não é? 0:44 Pessoa 2 Ora, digam bem vindos ao pergunta simples, o vosso podcast sobre comunicação? Hoje conversamos com alguém que encontrou no palco não apenas uma profissão, mas uma espécie de casa interior. Diogo Infante contou me que na infância começou pela timidez e pelo desajuste, por aquela sensação de ser observado, de ser o lisboeta gozado no Algarve, de não ter ainda um lugar onde a voz encaixasse e que foi o teatro que lhe deu essa linguagem, a presença e, nas palavras dele, uma forma de se adaptar ao mundo. 1:13 À medida que foi crescendo como artista, veio uma outra descoberta. É de que existe um chip, uma espécie de ...
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    51 min
  • Como comunicar a guerra de hoje e a paz de amanhã? Manuel Poejo Torres
    Dec 10 2025
    Comunicar a Guerra, Pensar a Paz: O Mundo Explicado sem Eufemismos Num tempo em que a guerra voltou ao continente europeu e a ameaça nuclear regressou ao vocabulário político, comunicar tornou-se tão decisivo quanto negociar, tão estratégico quanto deter armamento. A forma como entendemos o conflito — e a forma como os líderes o explicam — determina a capacidade de uma sociedade se proteger, se posicionar e, sobretudo, de construir paz. Nesta conversa profunda com um dos mais atentos analistas de geopolítica e segurança internacional, exploramos não apenas o que acontece nas frentes militares, mas aquilo que raramente chega ao espaço público: a lógica das decisões, o medo que move líderes, a propaganda que molda percepções e a fragilidade das democracias perante um mundo multipolar, competitivo e cada vez mais turbulento. A Guerra Não Desapareceu — Apenas Mudou de Forma A guerra do século XXI já não é apenas feita de tanques, artilharia ou drones. É feita de comunicação, de opinião pública, de gestos diplomáticos e de ameaças que pairam mais do que disparam. O conflito na Ucrânia tornou visível uma realidade que muitos preferiam não ver: o regresso do imperialismo territorial, a competição entre grandes potências e a erosão lenta da ordem internacional construída após a Guerra Fria. E, como explica o especialista entrevistado, esta realidade é o resultado direto de um mundo onde já não existe uma potência única capaz de impor regras — e onde vários Estados procuram afirmar a sua posição, mesmo à força. “Falamos Demasiado de Guerra e Demasiado Pouco de Paz” Esta frase, dita logo no início da nossa conversa, resume uma das grandes preocupações: a paz tornou-se um bem adquirido, quase dado por garantido, e deixou de ser pensada como projeto político. Hoje discutimos armamento, sanções, alianças, ofensivas e contra-ofensivas, mas muito raramente discutimos planos reais de paz. A diplomacia parece muitas vezes refém de hesitações, cálculos eleitorais e receios de perder posição. Faltam líderes com visão e coragem para assumir compromissos difíceis. Falta clareza estratégica. Falta, em suma, o que sempre faltou antes dos grandes pontos de viragem da História: vontade de mudar o rumo. Propaganda: A Arma que Já Não Precisa de Mentir A propaganda moderna não opera através de falsidades grosseiras — opera com ângulos, omissões e narrativas cuidadosamente organizadas. Divide sociedades, instala ruído, confunde consensos. E, como lembra o convidado, é um mecanismo estrategicamente desenhado, não um acidente. Hoje, qualquer conflito é também uma batalha pelo centro emocional das populações. A pergunta já não é “quem dispara primeiro?”, mas sim “quem controla a interpretação do que acabou de acontecer?”. E esta disputa é tão séria como qualquer avanço militar. Num ambiente onde autocracias investem fortemente em desinformação, países democráticos só sobrevivem se investirem tanto em educação mediática quanto investem em equipamento militar. A Ameaça Nuclear: Entre a Política e o Medo Há uma década, a maioria das sociedades ocidentais consideraria inaceitável ouvir líderes políticos falar com leveza sobre o uso de armas nucleares. Hoje, essa retórica tornou-se comum. A ameaça nuclear voltou a ser utilizada como instrumento de coerção psicológica — não necessariamente para ser usada, mas para moldar decisões, atrasar apoios, dividir alianças e impor limites invisíveis. E, como explica o analista, esta ameaça não é apenas militar: é emocional. Desestabiliza, silencia, intimida. Perante isto, a resposta das democracias deve ser equilibrada, firme e prudente. Nem ceder ao medo, nem alimentar a escalada. Europa: Entre a Vulnerabilidade e a Oportunidade A União Europeia confronta-se com uma verdade desconfortável: não tem poder militar proporcional ao seu peso económico. E num mundo onde a força voltou a ser a linguagem dominante, esta assimetria torna-se perigosa. Apesar disso, a Europa tem vantagens únicas: capacidade económica para modernizar as suas defesas;alianças históricas que multiplicam o efeito da sua ação;e, sobretudo, uma rede de Estados democráticos cujo valor estratégico reside no coletivo e não no individual. Mas falta ainda algo fundamental: coragem política para agir antes de ser tarde. A Ética da Guerra: A Linha que Nos Define No final, chegamos ao ponto mais difícil: a ética. O que separa uma guerra justa de uma guerra injusta? O que é aceitável negociar? Que compromissos violam princípios fundamentais? E como explicar a uma criança porque é que um país decidiu invadir outro? A resposta do convidado é simples e trágica: as guerras deixam sempre lições — mas as sociedades nem sempre as aprendem. A história mostra que a Europa só foi corajosa em momentos de desespero. É urgente quebrar esse padrão. Lições que Ficam A paz não é ...
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    1 ora e 4 min
  • O que nos torna humanos num mundo de máquinas? Albano Jerónimo
    Dec 3 2025
    O Corpo, o Erro e a Imaginação: Uma Conversa Aberta Sobre o Que Nos Torna Humanos Há conversas que não vivem apenas na superfície; conversas que abrem espaço para respirar, repensar e reorganizar o que levamos por dentro. A conversa de Jorge Correia com um dos atores mais intensos e inquietos da ficção portuguesa é uma dessas. Ao longo de quase uma hora, falámos de corpo, erro, infância, imaginação, afeto, tecnologia, masculinidade e do que significa estar vivo com alguma atenção. O episódio gira em torno de uma ideia simples, mas transformadora: a vida é uma negociação permanente entre o que sentimos e o que conseguimos colocar no mundo. E é isso que o convidado pratica — no teatro, no cinema, e na forma como se relaciona com os outros. Essa reflexão nos leva a perguntar: O que nos torna ainda humanos num mundo de máquinas? Albano Jerónimo O corpo como primeiro lugar de comunicação Uma das ideias que atravessa toda a conversa é o papel do corpo — não como acessório do trabalho, mas como a sua raiz. É através da respiração, do gesto, da postura e do ritmo que se organiza a verdade de uma cena. Antes da palavra, antes da técnica, antes da intenção, está o corpo. O que nos torna ainda humanos num mundo de máquinas? Albano Jerónimo Fala-se disso com uma clareza rara: o corpo não mente, não adorna, não otimiza. O corpo não tem discurso — tem presença. E na era da comunicação acelerada, onde tudo é mediado por filtros, algoritmos e versões de nós mesmos, esta é uma ideia que nos devolve ao essencial. Comunicar não é impressionar; é estar presente. O erro como método e como espaço seguro A segunda grande linha desta conversa é o erro — não como desgraça, mas como ferramenta. E aqui há um ponto forte: ao contrário da ideia dominante de que falhar é perigoso ou condenável, o convidado assume o erro como ponto de partida. É no erro que se descobrem novas possibilidades, que se afinam gestos, que se encontra o tom certo. O erro é uma espécie de laboratório emocional. E esta visão não se aplica só à arte. É também um modelo de liderança. No teatro e nas equipas, defende que o ensaio deve ser um lugar onde se pode falhar sem medo — porque a criatividade só existe quando não estamos a proteger-nos o tempo todo. Criar espaço para o erro é criar espaço para a coragem. Infância pobre, imaginação rica A conversa revisita ainda as origens do convidado — um contexto de escassez que se transformou numa máquina de imaginação. Um tapete laranja, bonecos de bolo de anos, uma casa pequena que exigia inventar mundos alternativos. “Há quem estude para aprender a imaginar. Há quem imagine para sobreviver.” Esta frase resume bem o impacto da infância na sua forma de estar. A imaginação não é um escape — é uma estrutura vital. E quando mais tarde se interpretam personagens duras, frágeis ou moralmente difíceis, não se parte de conceitos abstratos; parte-se dessa memória de observar o mundo com atenção e curiosidade. Entrar num personagem é entrar num corpo que podia ter sido o nosso. A relação com a tecnologia e o palco: carne.exe e o confronto com a Inteligência Artificial Uma das partes mais inesperadas e ricas da conversa é a reflexão sobre a peça carne.exe, em que o convidado contracena com um agente de inteligência artificial criado especificamente para o espetáculo. Uma “presença” que responde, improvisa e interage — mas que não sente, não cheira, não erra. A conversa revela uma inquietação legítima: o que acontece ao humano quando se retira o corpo da equação? Quando a imaginação é substituída pela otimização? Quando a falha desaparece? Há uma frase que se tornou icónica: “Uma máquina pode descrever um cheiro… mas não o sente.” É aqui que a arte se torna também crítica do seu tempo: o perigo não está na tecnologia em si, mas na possibilidade de nos esquecermos do que nos diferencia dela. Masculinidade, vulnerabilidade e o lado feminino O episódio toca ainda num tema essencial: as masculinidades contemporâneas. Fala-se de dúvidas, fragilidades, contradições — de como fomos educados para esconder sentimentos e de como isso nos limita. E há uma admissão honesta e importante: a presença de um lado feminino forte — não no sentido identitário, mas sensorial. Esse lado que observa, que cuida, que escuta, que sente. É talvez a parte mais desarmante da conversa: a vulnerabilidade não diminui; amplia. A sensibilidade não fragiliza; afina. A mãe, a sobrevivência e aquilo que nos organiza por dentro Um dos momentos mais humanos surge quando se fala da mãe — do que ela ensinou, do que ficou, do que ainda ressoa. A conversa entra aqui num registo íntimo, afetivo, não sentimentalista, mas cheio de verdade. É um lembrete de que, por muito que avancemos na vida, há sempre uma pergunta que nos organiza: como é que sobrevivi até aqui e quem me segurou? ...
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    55 min