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Pergunta Simples

Pergunta Simples

Di: Jorge Correia
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A proposito di questo titolo

O Pergunta Simples é um podcast sobre comunicação. Sobre os dilemas da comunicação. Subscreva gratuitamente e ouça no seu telemóvel de forma automática: https://perguntasimples.com/subscrever/ Para todos os que querem aprender a comunicar melhor. Para si que quer aprender algo mais sobre quem pratica bem a arte de comunicar. Ouço pessoas falar do nosso mundo. De sociedade, política, economia, saúde e educação.Copyright 2020 Todos os direitos reservados Filosofia Scienze sociali
  • O que faz uma comida ficar na memória? Marlene Vieira
    Jan 21 2026
    Uma conversa com Marlene Vieira sobre sabor, identidade, liderança e experiência Durante muito tempo, a cozinha portuguesa foi um lugar de repetição. Um território de receitas herdadas, de gestos transmitidos, de sabores reconhecíveis. Um lugar de conforto. Mas também, muitas vezes, de pouca pergunta. Hoje, num pequeno balcão em Lisboa onde tudo é visível — as mãos, o fogo, o detalhe, o erro possível —, Marlene Vieira trabalha precisamente no sentido oposto: cozinhar como quem pergunta. Faz agora um ano que o restaurante Marlene recebeu a sua estrela Michelin. Um ano não é muito tempo. Mas é tempo suficiente para perceber que, neste caso, a estrela não é um fim. É apenas um ponto de passagem. A memória antes da técnica A história de Marlene não começa na alta gastronomia. Começa numa cozinha grande, barulhenta, no Minho. Começa numa avó que cozinhava para mais de vinte pessoas por dia. Num fogão a lenha. Em tachos que ficavam a manhã inteira ao lume. Em cheiros de couve galega acabada de cortar, de enchidos, de sopa sempre a apurar. É daí que vem a sua primeira escola: a cozinha como lugar de comunidade. Antes de ser profissão, foi ambiente. Antes de ser carreira, foi cheiro. Antes de ser técnica, foi memória. E talvez por isso, quando hoje fala de alta cozinha, Marlene fala sobretudo de produto, de tempo, de respeito. Fala menos de espetáculo e mais de substância. “Quanto melhor é o produto, menos transformação precisa.” É uma frase simples. Mas é também uma posição filosófica. O rigor e o erro A cozinha profissional ensinou-lhe outra coisa: o rigor. Durante anos, Marlene trabalhou em ambientes onde o erro não era tolerado. Onde havia gritos, castigos, humilhação. Onde a disciplina era imposta mais pelo medo do que pela compreensão. Hoje, o seu trabalho é quase o oposto: criar sistemas para que o erro não aconteça. Não por obsessão com o controlo, mas por respeito pelo cliente. Num restaurante com estrela Michelin, um prato não pode sair “quase bem”. Ou está certo, ou não sai. Isto muda tudo: a forma como se trabalha, como se lidera, como se comunica. A função do chefe deixa de ser apenas cozinhar. Passa a ser organizar pessoas, processos e expectativas. Liderar é estar sozinho Marlene fala disso sem romantismo: liderar é solitário. Há uma distância inevitável entre quem decide e quem executa. Há dias em que é preciso ser firme. Há dias em que se erra. Há dias em que se pede desculpa. Ela própria diz que às vezes é vista como “um dragão”. Mas os números contam outra história: subchefes que estão com ela há 10, 12, 15 anos. Equipas que ficam. Talvez porque, por baixo do rigor, haja uma coisa mais rara: justiça. O preço real das coisas A inflação, o preço do peixe, do marisco, da energia, da renda, dos salários. A restauração é hoje um negócio de margens frágeis. Marlene explica com um exemplo simples: há cinco anos, o quilo do carabineiro custava pouco mais de 30 euros. Hoje, pode passar os 100. O cliente vê o preço no prato. Raramente vê tudo o que está por trás. E no entanto, mesmo casas cheias podem tornar-se inviáveis se não se adaptarem. A palavra-chave é essa: adaptação. Tirar pratos. Mudar cartas. Ajustar modelos. Sobreviver. A cozinha como identidade Há outra preocupação que atravessa toda a conversa: a perda de referências. Cozinha-se menos em casa. Encomenda-se mais. Come-se mais rápido. Mais igual. Mais industrial. As novas gerações podem crescer sem saber o sabor de um bom caldo, de um cozido lento, de uma comida que levou horas a fazer. E aqui entra um paradoxo curioso: são os turistas que, muitas vezes, vêm salvar a cozinha portuguesa. São eles que procuram a autenticidade. Que querem o peixe simples, o azeite bom, o alho, os coentros, o poejo. “Eles levam os nossos sabores para o mundo.” E isso, diz Marlene, não se franchiza. Nova Iorque e a descoberta Aos 20 anos, Marlene foi para Nova Iorque. Sem falar inglês. Para uma cozinha portuguesa. A trabalhar 15 horas por dia. Foi lá que percebeu duas coisas: Que a cozinha portuguesa era muito mais rica do que imaginava.Que podia existir cozinha tradicional em ambiente de luxo. Essa ideia nunca mais a largou. Hoje, o seu restaurante é isso mesmo: um lugar de alta exigência sem cerimónia inútil. Onde se pode entrar de ténis. Onde o foco está no que está no prato. Criar é combinar gavetas Quando fala de criatividade, Marlene não fala de inspiração súbita. Fala de gavetas mentais: sabores, texturas, memórias. Fala de criar primeiro na cabeça. De combinar coisas que já lá estão. De às vezes perceber, tarde demais, que uma ideia óbvia só apareceu agora. Fala muito de texturas. Porque a textura muda o sabor. Um bacalhau passado do ponto já não sabe ao mesmo bacalhau. Criar é, muitas vezes, afinar milímetros. Uma estrela, muitas pessoas Marlene foi a primeira mulher em 30 anos a receber uma ...
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    1 ora e 2 min
  • O que é um bom livro para ler? Ana Daniela Soares
    Jan 14 2026

    Num tempo em que quase tudo é reduzido a título, excerto ou opinião instantânea, a pergunta pode parecer ingénua: o que é um bom livro para ler?

    Mas talvez seja precisamente por isso que ela importa tanto.

    Ler exige hoje aquilo que se tornou raro no espaço público: tempo, atenção, silêncio e disponibilidade para escutar o outro. Um livro não compete bem com a pressa. Não cabe em trinta segundos, não se resume num post e não se explica em três frases. E, ainda assim — ou talvez por isso mesmo — continua a ser um dos últimos lugares onde o pensamento pode amadurecer sem pedir desculpa.

    A conversa com Ana Daniela Soares, no mais recente episódio do Pergunta Simples, parte dessa pergunta simples para uma reflexão mais ampla sobre leitura, empatia e responsabilidade cultural. Não é uma conversa sobre tendências editoriais nem sobre listas de recomendações. É uma conversa sobre critérios.

    A história antes do estilo

    Para Ana Daniela Soares, a resposta começa sem rodeios: um bom livro tem de contar uma boa história.

    Não precisa de exibicionismo formal nem de complexidade gratuita. Pode ter uma escrita simples, limpa, direta — desde que haja história. Um livro que é apenas um exercício de estilo pode impressionar por momentos, mas raramente fica.

    Esta defesa da história não é conservadora nem simplificadora. Pelo contrário: é uma defesa da inteligibilidade. Uma boa história organiza o mundo, cria sentido, permite ao leitor entrar. Mesmo a escrita mais experimental precisa de um eixo que a sustente. Sem ele, o livro fecha-se sobre si próprio.

    O que faz um livro ficar

    Nem todos os livros que são publicados resistem ao tempo. A maioria desaparece com a corrente — não por falta de mérito, mas porque o tempo é um juiz implacável. Os livros que ficam tendem a partilhar um traço menos óbvio do que o talento: empatia.

    Ao longo de quase duas décadas a entrevistar escritores, Ana Daniela Soares identifica esse padrão com clareza. Os grandes autores são, regra geral, profundamente atentos ao humano. Observam, escutam, tentam compreender o outro — mesmo quando escrevem ficção. Essa empatia não é sentimentalismo; é método. É a capacidade de olhar para fora de si, de manter a “janela aberta para a rua”.

    É também por isso que tantos grandes livros parecem falar do presente antes de o presente se tornar evidente. A literatura funciona como radar. Capta movimentos subterrâneos da sociedade, conflitos ainda difusos, tensões que só mais tarde se tornam notícia. Quando a realidade explode, muitas vezes o livro já lá estava.

    Ler no tempo do algoritmo

    Num ecossistema mediático dominado pelo algoritmo, pela velocidade e pela simplificação, a leitura longa tornou-se um gesto quase contracultural. Hoje pede-se ao leitor que decida rápido, que consuma rápido, que passe à frente se algo exige esforço.

    Mas um livro não funciona assim. Exige insistência. Exige entrega. Exige, sobretudo, a liberdade de largar — e de regressar mais tarde. Há livros que não são para um determinado momento da vida. E isso não os torna menores.

    Ler tudo não significa ler bem. O valor está na variedade, no risco, na disposição para sair do confortável. E também na capacidade de reconhecer quando um livro não nos está a dizer nada — sem culpa excessiva, mas com honestidade.

    O risco de deixarmos de ler a sério

    A pergunta final é talvez a mais inquietante: o que acontece se deixarmos de ler a sério?

    A resposta não é abstrata. Há consequências cognitivas, emocionais e culturais. O cérebro muda. A capacidade de atenção diminui. A empatia enfraquece. A compreensão do outro torna-se mais pobre.

    Ler não é apenas entretenimento. É treino. É exercício mental. É uma forma de aprender a viver com complexidade sem fugir dela. Uma sociedade que deixa de ler com tempo e exigência empobrece — não apenas culturalmente, mas democraticamente.

    Um critério simples, uma exigência alta

    No fim, a resposta à pergunta inicial é simples — e exigente.

    Um bom livro é aquele que conta uma boa história, nasce da empatia, resiste ao tempo e nos obriga a parar. Não para escapar ao mundo, mas para o compreender melhor.

    Num tempo acelerado, ler continua a ser uma forma de resistência.

    E talvez, ainda, uma das formas mais profundas de comunicação que nos restam.

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    49 min
  • Qual é o papel da arte na conversa pública? Rui Melo
    Jan 7 2026
    Escuta, empatia , arte, polémica e comunicação

    Porque é que ouvir se tornou tão difícil? No Pergunta Simples, a conversa com Rui Melo cruza teatro, polémica e criação artística para refletir sobre escuta, mudança de opinião e o lugar da arte na discussão pública.

    No mais recente episódio do Pergunta Simples, Rui Melo passou pelos principais temas do seu trabalho artístico e pelas ideias que têm marcado a sua reflexão pública sobre comunicação, escuta e o papel da arte na sociedade contemporânea.

    Ator, encenador, músico e argumentista, Rui Melo está atualmente em cena com a peça “Arte”, de Yasmina Reza, um texto centrado na amizade, no desacordo e na dificuldade de aceitar o ponto de vista do outro. A peça serviu como ponto de partida para uma conversa mais ampla sobre a forma como lidamos com opiniões divergentes, tanto no espaço público como nas relações pessoais.

    Logo no início da conversa, Rui Melo afirmou que um dos maiores problemas do nosso tempo é a perda da capacidade de ouvir. Para o ator, ouvir não é apenas escutar palavras, mas estar genuinamente disponível para mudar de opinião quando confrontado com novos argumentos ou factos. Essa disponibilidade, defende, tornou-se rara numa sociedade cada vez mais rígida e polarizada.

    A conversa passou depois para a forma como o debate público se transformou nos últimos anos. Rui Melo criticou a ideia de que todas as opiniões têm o mesmo peso, independentemente do conhecimento ou da experiência de quem as emite, e sublinhou que a proliferação dessa lógica dificulta o diálogo e a aprendizagem. As redes sociais, acrescentou, não criaram este fenómeno, mas amplificaram-no, dando visibilidade a discursos que antes ficavam circunscritos a espaços mais limitados.

    No plano artístico, Rui Melo defendeu uma visão da arte como espaço de provocação e fricção. Para si, a função da arte não é confortar nem agradar, mas provocar um efeito emocional e intelectual, mesmo que isso implique desconforto ou polémica. É nesse enquadramento que surge a sua participação em projetos que suscitaram debate público.

    Ao falar do trabalho em “O Arquiteto”, Rui Melo fez questão de sublinhar que se trata de uma obra de ficção e não de um documentário. O objetivo, explicou, nunca foi oferecer respostas fechadas, mas levantar questões e incentivar a discussão sobre temas sensíveis, como o abuso de poder, o assédio ou o silêncio coletivo em torno de determinados assuntos. As reações opostas ao projeto — críticas por ir longe demais e por não ir suficientemente longe — foram, para si, um sinal de que a discussão estava a acontecer.

    A conversa abordou também os limites da escuta. Rui Melo reconheceu que nem todas as opiniões merecem diálogo e que existem fronteiras pessoais que não está disposto a ultrapassar, sobretudo quando o discurso do outro não procura diálogo ou aprendizagem, mas apenas provocação. Ainda assim, distinguiu essas situações do debate genuíno, que pressupõe escuta mútua e abertura.

    No contexto profissional, o ator descreveu o trabalho artístico como um processo de afinação constante: de ritmo, de tom e de relação com o outro. A chamada “química” entre pessoas, afirmou, não é um dado fixo, mas algo que se constrói através da escuta, da atenção e da disponibilidade para ajustar.

    Ao longo do episódio, Rui Melo regressou várias vezes à ideia de maturidade e dúvida. Citando uma canção que o marcou, afirmou sentir-se numa fase da vida em que as certezas caducam — não como sinal de fragilidade, mas como consequência natural de quem continua disponível para aprender.

    A conversa terminou sem conclusões fechadas, mas com uma ideia transversal a todos os temas abordados: comunicar bem exige tempo, escuta e a capacidade de aceitar que o outro pode ter razão. Num contexto marcado por respostas rápidas e posições rígidas, essa atitude surge como um exercício cada vez mais raro – e cada vez mais necessário.

    Uma conversa para ouvir devagar.

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    52 min
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