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O Tal Podcast

O Tal Podcast

Di: Paula Cardoso e Georgina Angélica
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Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

2026 Big Lisbon
Relazioni Scienze sociali
  • Arlinda Norris: “O meu nome era para ser Ana Cristina, mas a ir para o registo, o meu pai ouviu uma música de uma Arlinda. A minha mãe quase que o matou”
    Sep 24 2026

    Há cerca de dois anos, Arlinda Norris foi atropelada em Nova Iorque, acidente que abriu um novo capítulo na sua história, recém-partilhada no livro biográfico “She Kept Going”. Em português: “Ela seguiu em frente”. Nascida em Portugal, e durante cinco anos educada em Cabo Verde, a autora e ex-bailarina do cantor Emanuel, popularizada como “Nani do Pimba”, recorda, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, como viveu o sonho e o pesadelo americano.

    Aos 50 anos, Arlinda Norris olha para a sua história e revisita cada recomeço. “O que fiz quando perdi tudo? Quando estava a um dia de ficar ilegal nos Estados Unidos? Quando não tinha casa para morar, e estava com os meus filhos na rua? Quando não havia comida?”.

    As respostas, encontradas nos momentos mais difíceis da sua vida, ajudaram-na a construir o “Método RLynda”, traduzido em seis passos que prometem deixar para trás qualquer adversidade: Libertar, Escutar, Ceder, Navegar, Discernir e Reconhecer.

    Expressão das suas aprendizagens, o método voltou a ser testado há pouco mais de dois anos, quando Arlinda foi atropelada em Nova Iorque.

    “Estava na passadeira, a luz estava verde. Lembro-me de estar feliz. De repente, senti um grande impacto.”

    Seguiram-se 13 operações e dois anos de reconstrução física e emocional. “Só me caiu a ficha mais ou menos um mês depois de estar em casa”, conta a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

    A experiência determinou a escrita do livro “She Kept Going”, em que partilha os capítulos mais decisivos da sua trajetória.

    Nascida e criada em Lisboa, com uma forte ligação às origens cabo-verdianas, Arlinda recorda como a sua infância e início de adolescência foram profundamente marcadas pela mudança para a Ilha do Fogo. “Fomos por 15 dias e voltámos cinco anos depois.” Sem os privilégios a que estava habituada em Portugal, a autora reconhece que foi aí que aprendeu a adaptar-se às circunstâncias.

    Mais tarde, já de volta à casa lisboeta, começou a dançar para músicos, como o angolano Paulo Flores, que acabaria por se tornar o seu primeiro namorado. Foi, contudo, com o português Emanuel que correu o país de lés-a-lés e pisou vários palcos do mundo, percurso que lhe valeu o epíteto de “Nani do Pimba”.

    Até que o chamamento da maternidade se começou a impor. “Os 25 estavam a chegar, já estava cansada de estrada, de televisões, e disse: ‘Vou parar de dançar’”.

    Parou, viajou para tentar a sorte na cidade de Boston, mas viu-se na iminência de ficar em situação ilegal, desfecho que evitou com uma noite de trabalho num clube de striptease. Anos mais tarde, já casada com um basquetebolista, regressaria aos EUA para desfrutar o sonho americano, intensamente vivido até voltar a perder tudo.

    Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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    59 min
  • Didier Ferreira: “Sou amigo dos meus alunos. Gosto de me dar bem com eles, mas antes não pensava assim. Muitos professores esquecem que foram alunos”
    Sep 17 2026

    Estiveram cerca de 10 anos sem se ver, mas nunca perderam o contacto. Didier Ferreira e Diogo Rodrigues, professor e antigo aluno, respetivamente, voltaram a encontrar-se neste episódio d’ “O Tal Podcast, especialmente gravado para assinalar o arranque do novo ano letivo. Além de partilharem a importância do vínculo entre professores e alunos, os convidados de Georgina Angélica e Paula Cardoso reflectem sobre a missão da escola.

    Diogo estava no 11.º ano, com resultados que eram um “descalabro total” a Português, quando o professor Didier entrou em cena. Conheceram-se num centro de explicações e, no início, estavam ligados por um objetivo modesto: cabia ao professor garantir que o aluno conseguisse uma nota positiva no exame, para não prejudicar a média. Contudo, a relação próxima, divertida e comprometida que se estabeleceu entre os dois acabou por levar Diogo a exame com um 15, e a conseguir um 17 nessa prova final.

    O segredo? Para Diogo, está na capacidade de um professor ouvir, conhecer e reconhecer o outro, identificando as suas capacidades, limitações, pontos fortes e pontos fracos para, a partir daí, adaptar a mensagem a quem a recebe. Foi precisamente essa disponibilidade que encontrou em Didier, que rapidamente percebeu que o problema não estava na capacidade ou na inteligência do aluno, mas na sua motivação para a disciplina.

    A experiência com Diogo acabaria também por transformar Didier enquanto professor. “Antes via-me como um professor transmissor — que tem o conhecimento e o transmite ao aluno. Só que quando o aluno não quer aprender, que era o caso do Diogo, o que é que faço? Tornei-me um professor condutor e, acima de tudo, um aliado, um amigo.”

    A diferença, explica, é que deixou de pensar no seu papel apenas como o de alguém que transmite conhecimento, e passou a colocar a relação com o aluno no centro da sua prática pedagógica.

    No caso de Diogo, o gosto partilhado pela poesia e pelo rap tornou-se um dos elementos facilitadores e incentivadores do estudo. Por exemplo, se Diogo mantivesse as notas acima de 14, parte das aulas poderia ser dedicada à análise de poemas e letras de rap.

    Mais do que uma estratégia para melhorar resultados, o acordo permitiu que a aprendizagem partisse dos interesse do aluno, e que a explicação se tornasse um espaço de descoberta e experimentação.

    “Não esqueço que também fui aluno. Muitos professores esquecem que foram alunos”, nota Didier, dando, como exemplo, a distribuição do tempo. “Se a aula tem 45 minutos, vou dividir para que seja sempre no máximo 15 a 20 minutos de aula teórica, e a seguir prática. Tento não dar seca a ninguém, porque eu também não gostava.”

    Da gramática a “Os Lusíadas”, passando pelo “Sermão de Santo António aos Peixes”, o professor partilha algumas vias que utiliza para aproximar conteúdos complexos dos alunos: recorre a analogias, situações do quotidiano e exercícios que os desafiem a considerar outras perspetivas. Resumidamente, implementa uma pedagogia em que o aluno deve ser a “estrela” da sala de aula, enquanto o professor assume o papel de quem trabalha “na sombra”, conduzindo e criando condições para que cada um encontre o seu próprio caminho.

    Neste episódio, questiona-se também o papel da escola perante as transformações sociais, e os desafios que os alunos enfrentam. A conversa passa igualmente por uma reflexão sobre a burocratização da profissão docente, a distância entre os métodos de ensino e os interesses das novas gerações, o cyberbullying e as desigualdades sociais.

    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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    1 ora e 14 min
  • Miriam Santos: “Quando me dizem: ‘Prefiro procurar um psicólogo negro’, são pessoas que estão à procura de um espaço onde não sejam traumatizadas de novo”
    Sep 10 2026

    Miriam Pires dos Santos nasceu e cresceu entre três geografias: São Tomé e Príncipe, Angola e Portugal. A imersão em diferentes contextos culturais e sociais, aliada ao olhar atento às várias formas de ser e estar no mundo, despertou-lhe desde cedo um fascínio pelo comportamento humano. Essa curiosidade conduziu-a até à psicologia, área que ajuda a transformar a partir do trabalho da plataforma AfroPsis, um dos temas em destaque neste episódio d’ “O Tal Podcast”.

    Enquanto estudava no ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Miriam Pires dos Santos estranhou a ausência de alunos negros, limitada, em toda a faculdade, a outra colega, e extensiva, ao longo da formação académica, a um vazio de referências às comunidades afrodescendentes.

    Já em contexto profissional, foi a importância da sua presença que a interpelou, em particular numa casa de acolhimento onde a maioria dos jovens eram negros, levando-a a constatar a existência de um olhar pouco atento às questões de saúde mental das comunidades afrodescendentes.

    Entre inquietações, a psicóloga encontrou numa conferência sobre multiculturalismo, ao ouvir o colega Henda Vieira Lopes, o “clique” de que precisava. Nascia assim uma parceria que, de contacto em convite, levou à criação da AfroPsis, plataforma de psicólogos, psicoterapeutas e técnicos de Saúde Mental afrodescendentes em Portugal.

    Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Miriam Pires dos Santos fala sobre aquilo que é comum na experiência de pessoas negras no contexto da psicologia, explicando a importância de encontrarem terapeutas que reconheçam as suas subjetividades.

    “As pessoas negras, africanas, afrodescendentes, quando chegam até mim, frequentemente relatam um alívio de não terem que estar continuamente a justificar os seus contextos familiares e culturais.”

    Debruçando-se sobre as especificidades étnico-raciais, a psicóloga lembra também a existência de hierarquias raciais que persistem desde a escravatura e o colonialismo, e chama a atenção para as formas, muitas vezes subtis, através das quais se continuam a manifestar.

    Miriam partilha também uma reflexão pessoal sobre o seu percurso terapêutico, e sobre o “músculo psicológico” que foi desenvolvendo ao longo dos anos, para lidar com o sofrimento e com as pressões que atravessam a sua experiência. Uma trajetória que lhe permite reconhecer a complexidade da condição humana: por um lado a nossa capacidade para as “maiores violências e atrocidades”; por outro para “as maiores misericórdias e atos de bondade”. É nesse lugar que mantém a “esperança de que o bem e a capacidade para fazê-lo não esteja totalmente esmagada”.

    Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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    1 ora e 3 min
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