Episodi

  • Os traficantes de realidade. Uma conversa com Raquel Ribeiro
    Oct 17 2026
    Uma greve de fome é um diminuendo prolongado, angustiante. Sem nada para comer, o corpo começa lentamente a devorar-se a si próprio. Na Irlanda, a memória da Grande Fome, como lhe chamou o historiador Cecil Woodham-Smith, constitui um sedimento de cólera na consciência nacional, revolvido sempre que uma greve de fome volta a acontecer. Foi o que sucedeu com Bobby Sands. Entre outras reivindicações, Sands exigia o reconhecimento do estatuto de preso político. Nem ele nem os nove jovens camaradas do Exército Republicano Irlandês (IRA) que, em 1981, lhe seguiram os passos até à morte por inanição voluntária chegaram a obtê-lo. Para Margaret Thatcher, então primeira-ministra britânica, não passavam de criminosos que tinham voltado a violência contra si próprios. Naquele ano, no decorrer de uma visita à Arábia Saudita, quando lhe perguntaram pelos membros do IRA detidos na prisão de alta segurança de Maze, na Irlanda do Norte, em protesto para poderem ser considerados “presos políticos” em lugar de prisioneiros de “delito comum”, a Dama de Ferro responde: “Não existe atentado político ou violência política. Não vamos ceder nesse ponto. Não haverá estatuto político. Um crime é um crime é um crime. Não é político. É crime e não pode haver qualquer possibilidade de conceder estatuto político.” Faltavam menos de dois meses para que Bobby Sands morresse na prisão, ao fim de sessenta e seis dias em greve de fome. Os mártires irlandeses tinham um imoderado gosto pela poesia e geralmente deixavam para trás pelo menos uma frase memorável. A de Sands possivelmente terá sido esta: «A nossa vingança será o riso dos nossos filhos.» Em 1982, em plena ditadura chilena, a poeta Carmen Berenguer fica abalada pela morte de Bobby Sands, e dedica-lhe Bobby Sands desfallece en el muro, um conjunto de fragmentos-manifesto em homenagem ao revolucionário irlandês, fazendo da poesia o “único modo de mudar/ a pólvora por jardins de paz”. Berenguer atava assim o laço da solidariedade entre os presos políticos chilenos, nas masmorras da ditadura de Pinochet, à luta dos republicanos irlandeses por uma Irlanda unificada e livre da ocupação britânica, pegando na mão esfaimada de Sands para lhe(s) anunciar (mutuamente, talvez) a possível Primavera aos seus povos. Como escreveu Sands: “Estou à espera da cotovia/ que na Primavera é tudo/ para nós./ Agora, no meu leito de morte/ continuo a ouvir/ os corvos negros.” Este epitáfio é puxado para epígrafe do livro, e Berenguer assinala como aquela notícia veio colocar em perspectiva toda uma época trágica, e abrir caminho a uma nova forma de relação com a política. “Pareceu-me uma situação-limite, uma acção através da inanição, sustentada por uma convicção indiscutível, por um amor tão grande pelos seus ideais que alguém era capaz de morrer por eles. A minha pergunta era como escrever sobre a fome e pensei que devia evitar a sua biografia, uma vez que esta estava implícita nos relatos dos meios de comunicação. Procurei então perceber o que era importante, qual seria a afirmação de alguém que leva a cabo uma acção tão radical e consciente, que me obrigava a pensar o texto, que já tinha escrito em tercetos. Estes surgiram enquanto pensava na história da Irlanda. Foi numa cela de convento que os terminei e corrigi, num quarto com uma cama muito pequena, uma mesa-de-cabeceira e uma janela tão diminuta que me dava a sensação de estar numa prisão chilena.” Publicado originalmente de forma artesanal em Santiago de Chile em 1983. Cada poema assinala um dia de jejum. Por volta do trigésimo quarto dia, o discurso passa à primeira pessoa, transformando a dor de um corpo levado ao limite num manifesto de resistência íntima. Eis uns excertos: “É a fome das ruas/ o absoluto rigor da fome”. “Débil chega o mar/ ao meu quarto/ medindo-me/ entre os dedos de algas”. “Náuseas, a náusea:/ Com os lábios pintados/ vomita a morte”. “Estou no limiar de um outro mundo vacilante”, escreveu o próprio Bobby Sands. E Seamus Heaney, no livro de ensaios The Government of the Tongue, de 1988, procura nos poetas da Europa de Leste o padrão de referência à luz do qual se revelam as insuficiências da "imaginação insular, vernácula e britânica", assinala naqueles poetas a força de um cometa que rasga os céusatravés de umm testemunho literário da História capaz de lançar um olhar que procura o nosso e não nos deixa virar a cara “perante os factos da dor, a recorrência da injustiça e da catástrofe”, e que eleva as suas obras à condição de “martirológio moderno, um registo de coragem e sacrifício”. Para poetas como o russo Óssip Mandelstam, os polacos Czesław Miłosz e Zbigniew Herbert, ou o checoslovaco Miroslav Holub, “o impulso de dizer a verdade e a compulsão de se identificar com os oprimidos tornam-se necessariamente parte integrante do ...
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    4 ore e 28 min
  • Libertar Ulisses do purgatório. Uma conversa com Miguel Bonneville
    Oct 9 2026
    Mal se dorme nesta época, talvez porque as noites estão cheias de confissões, sugere ele, o que as liga umas às outras, abre esses canais de pernoita, essas funções burocráticas que converteram esta geração à insónia. Müller admite que desde 1789 nenhuma revolução na Europa ou onde quer que fosse encontrou outro modo de sobrevivência que não a cultura da denúncia, essa perseguição que os homens se movem, a título de ensejo moralizador. Mas chegamos a um tempo dos acusados, a esta mediocridade expiatória, que, pelo menos, justificaria a necessidade de cada um ilibar-se, o que leva a à obsessão de se narrar de forma coerente, para não deixar nenhuma hora das suas vidas por registar. Alguns, no entanto, em vez dessa compulsão delirante de viver os dias documentando-se, produzindo a cada passo uma duplicação por escrito, em registo biográfico, preferem desentender-se consigo mesmos, não se solidarizar de nenhum modo, e até escarrar em cima dessa infeliz, recusando serem crucificados nesse excesso de coincidência com um perfil identitário. «A partir do século XVIII, a cultura da autenticidade construiu-se exaltando o ideal de verdade face a si e aos outros: a ‘escrita do eu’ oferece dela uma ilustração perfeita», diz-nos Lipovetsky. «Com as Confissões, Rousseau abre caminho a uma nova forma de falar de si, de se contar, de se dizer até nos pormenores mais íntimos da vida. Uma tarefa tão perigosa que Rousseau não hesita em declarar que ninguém o fez antes dele próprio. A famosa frase que enceta essa obra não tem qualquer ambiguidade a este respeito: ‘Vou empreender uma coisa sem exemplo e cuja realização não será imitada. Quero mostrar aos meus semelhantes um homem em toda a verdade da natureza, e esse homem serei eu.’ Pela primeira vez, um homem normal, sem qualidades, toma a liberdade de escrever um livro onde são revelados os seus segredos, os pormenores mais íntimos da sua vida, os seus sentimentos, os seus erros, grandes e pequenos. A ambição proclamada consiste eme inaugurar uma nova forma de se pintar sem hipocrisia e sem esconder o que quer que seja aos leitores, revelar um homem por inteiro, tal como é, sem máscaras, ‘em toda a sua verdade’. Celebrando a expressão sincera da subjectividade, Rousseau cria um novo género literário – a narrativa autobiográfica –, cujo modelo fixa e cujo atractivo, subsequentemente, não será desmentido», diz-nos Lipovetsky. Se este regime de algum modo se universalizou, talvez o capitalismo, com os seus principais combustíveis – a inveja e a vingança – a actuarem na subjectividade de cada um, tenha elevado este género a um modelo fundamental, enredando-nos nessa constante performance «egográfica», e à medida que a subjectividade ou a autenticidade se viam contaminadas pela função espectacular, pela competição em todas as esferas, a mitologia da veracidade foi sendo devassada. Enquanto o infraordinário e o banal recobriam toda a expressão, e as imagens na sua reprodução enfática absorviam as representações cada vez mais insistentes, dominadas pelo falso brilho dos clichés comerciais e publicitários, o verdadeiro foi dando lugar a outra coisa, a uma inversão nada subtil, a uma produção de fantasias em que todo o tédio se vai estetizando, e a retórica do verdadeiro dá lugar à frivolidade, à provocação do exibicionismo narcísico, da teatralidade sensacionalista, que tantas vezes procura legitimar o discurso procurando guindar essas manifestações a uma lógica transgressiva, desafiadora. Mas, na verdade, todo este regime contribui para uma reificação dos elementos de expressão e comunicação, aberto à disposição das massas, aos seus humores e sonhos factícios, que subscrevem sempre tendências, reforçando os consumos. Num certo sentido, todo expediente permitiu salvar o poder ao colapso que teria significado a morte de Deus e o advento do niilismo. Como nos diz Agamben, se para Nietzsche como para Dostoiévski, estas rupturas significavam algo de tão terrível que os homens jamais poderiam aceitá-los sem porem radicalmente em questão a sua própria existência, o filósofo italiano entende que neste caso estes dois autores proféticos falharam a compreensão do que estava a emergir. «O niilismo tornou-se a condição normal da humanidade, mas, ao contrário de Kiríllov, o homem comum de hoje parece viver com a morte de Deus e com o niilismo sem sofrer nem se importar, literalmente como se nada estivesse a acontecer.» Mas «se, como o próprio Nietzsche sugeriu, o niilismo, plenamente realizado e apreendido enquanto tal, constitui a grande oportunidade da humanidade para escapar ao seu destino letal – se, como pensava Benjamin, o niilismo pode tornar-se o método de uma nova política –, então a pergunta que temos de fazer a nós próprios é: ‘Por que razão esta oportunidade não foi aproveitada? O que nos impediu de fundar ...
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    4 ore e 4 min
  • Tudo menos ser mulher. Uma conversa com Cláudia Sobral
    Oct 2 2026
    Perdidas na história umas das outras, trocam de nome como de camisas de noite, e conhecem a espessura dos véus, o peso das máscaras, dos disfarces, estão nas suas próprias vidas como personagens, despindo-se segundo as indicações de outros, esse olhar que lhes refez a carne. Algumas despertam em segredo, raspando um fósforo, discretas incendiárias com vontade de que a chama pudesse consumir tudo, chegam a considerar-se da espécie da destruição mais do que da dos homens, e se conseguem exprimir o seu desejo falam de algo nas margens do sono, ruínas para lá dos nomes, admitindo que tiveram de coser na pele com linhas que não encontravam rumo na linguagem. Vi uma revolvendo as cinzas, procurando ler uma mais vasta profecia, alguma indicação quanto à geografia reconhecida apenas pelas que são tidas como loucas. "Olha para as mãos: sem pássaro, sem ondas, sem alvorada. Que pode ela fazer neste mundo? A de negro (...), aquela que devora o cérebro da noite. Avante, dama do impossível. Avante, mãe do tempo. Vendedora de tempestades" (Pizarnik). Trazem no sangue um remorso antigo, memória de outras quedas. Os nomes que lhes deviam ser próprios só soam de forma clara quando nomeiam catástrofes naturais. O mais difícil é segurar a memória, pois só nela encontram uma vida depois da morte. A morte nelas é um começo. Leem cartas, diários, restos que ficam dos dias, têm de ir à volta, criando uma cumplicidade nas zonas que a luz da história não alcança. Ali se reconhecem parte de uma linhagem forçada a residir nas dobras do tempo… «E o mais importante é não amar. Vejam o que fiz comigo própria por o amar tão profundamente! É tão doloroso e humilhante, mas ele acha que isso é simplesmente uma tolice. “Dizes uma coisa e fazes sempre outra.” Mas para que serve discutir desta maneira superior, quando não há em mim senão este amor humilhante e um mau feitio? E estas duas coisas foram a causa de todas as minhas desgraças, porque o meu temperamento sempre se interpôs no meu amor. Não quero senão o seu amor e a sua compreensão, e ele não mos dá; e todo o meu orgulho é calcado na lama; não sou senão um miserável verme esmagado, que ninguém quer, que ninguém ama, uma criatura inútil, com enjoos matinais e uma grande barriga, dois dentes podres e um mau feitio, com o sentido da dignidade espezinhado, e um amor que ninguém quer e que quase me leva à loucura.» Eis uma entrada do diário de Sofia Tolstói. Não faltam outras, escrevendo com a mesma mão, mergulhada nas águas de um imenso espelho. Naturalmente, têm uma estranha relação com os espelhos… «Se admitirmos que o poder evocativo do espelho só se revela quando nele se reflecte alguma coisa, então o espelho é recordação e é coisa ao mesmo tempo, coisa reflectida – quando não reflecte, o espelho é um ser que espera», escreve Maria Filomena Molder. «Por isso é tão surpreendente como natural que aquele que disse uma palavra e se afastou daquele que a poderia ouvir, no sentido de para sempre, de já não estar entre nós, se converta num espelho para aquele que recorda a palavra dita ou que a lê, se ela foi passada a escrito. A palavra abandonada, isolada do seu sopro vivo, anuncia essa metamorfose silenciosa, que não é exactamente uma metamorfose, mas uma espécie de empalidecimento exangue a que tudo o que é vivo fica reduzido quando se torna numa recordação. O espelho é assim um dos objectos que nos introduzem no reino dos mortos, é um dos graus numa iniciação: cada um é, será, um espelho.» Não é neste mundo que se reconhecem, mas só naquele que começa depois de se esgotarem as imagens imediatas, só naquele mundo que se faz daquilo que cantam. Não conhecem outra coisa senão a natureza mutante do mundo, como as formas são meras passagens, variações, peles que se despem, ecos, lembranças… Lilith, Eva, Agar, Jezabel, Dalila, Jahi, Tamar, Kali, Fátima, Artemis, Hera, Isis, Maria, Ishtar, Bathsheba, Vashti, Cleópatra, Helena, Salomé, Elisabete, Clitmnestra, Medeia, Joana, Circe, Morgana, Medusa… Perseguidas por ficções, contos de fadas, condenadas a procurar em vão o lugar exacto onde a lenda e a história se separam, como sugere Dworkin. De nada lhes vale tentar separar os factos da ficção. O mundo inteiro foi forjado enquanto uma sucessão de evidências de forma a provar que estão enganadas, a realidade só serve mesmo para as desmentir. A sensação de injustiça pode ser o pior dos venenos. «Mas as sereias têm uma arma mais terrível do que o seu canto: o seu silêncio», lembra Kafka. «Embora não tenha acontecido, seria contudo passível de se imaginar que alguém pudesse salvar-se do seu canto, mas por certo não do seu silêncio. Ao sentimento de havê-las vencido com a própria força, à exaltação avassaladora consequente, nada de terreno pode resistir.» É terrível observar como algumas mulheres ficam diante do espelho, o cuidado ...
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    3 ore e 36 min
  • Uma devastação inteligente. Conversa com João Camargo
    Sep 25 2026
    Os muros já praticamente não nos falam. E nem de limite servem, como barreiras, cortando as frases, interrompendo a tagarelice deste mundo tão jactante precisamente porque nada tem para dizer. Vende-nos constantemente o seu vazio por incapacidade de afirmar seja o que for. «Nada está próximo para quem está à deriva»... Eis a última frase que li num muro e que me pareceu que falava para mim. Já vão uns anos. Desencontrados de tudo, e desde logo desencontrados face à época, incapazes de corresponder à sintonia que esta exige, se quisermos afectar ou perturbar o seu curso, temos de começar pela afinação de uma estética, expurgando quer do senso comum quer da generalidade dos valores morais. Não sei que raio terão pedido a Ballard quando ele se lembrou de listar as suas crenças num breve artigo publicado originalmente numa pequena revista francesa, e, em vez de nos vir, com o habitual recital de sensaborias patéticas, o que é que lhe parecia crucial? Deter a noite, transcender a morte, encantar as auto-estradas, granjear a simpatia dos pássaros, conquistar as confidências dos loucos. Ora aí estava uma forma de ganhar a confiança a uma imaginação licenciosa, capaz de gerar algum transtorno, refazer o mundo, mesmo que apenas para uns quantos. «Acredito nas minhas próprias obsessões», adiantava ele, «na beleza do acidente de automóvel, na paz da floresta submersa, nas emoções da praia de férias deserta, na elegância dos cemitérios de automóveis, no mistério dos parques de estacionamento de vários andares, na poesia dos hotéis abandonados. (…) Acredito na impossibilidade da existência, no humor das montanhas, no absurdo do electromagnetismo, na farsa da geometria, na crueldade da aritmética, na intenção assassina da lógica. Acredito nas adolescentes, na sua corrupção pelas próprias posturas das pernas, na pureza dos seus corpos desgrenhados, nos vestígios dos seus genitais deixados nas casas de banho de motéis miseráveis. (…) Acredito na delicadeza do bisturi do cirurgião, na geometria ilimitada do ecrã de cinema, no universo oculto dentro dos supermercados, na solidão do Sol, na loquacidade dos planetas, na repetitividade de nós próprios, na inexistência do universo e no tédio do átomo. (…) Acredito nos próximos cinco minutos. (…) Acredito na ansiedade, na psicose e no desespero. (…) Acredito no alcoolismo, nas doenças venéreas, na febre e no esgotamento. Acredito na dor. Acredito no desespero. (…) Acredito em todas as alucinações. Acredito em toda a raiva. Acredito em todas as mitologias, memórias, mentiras, fantasias, evasões.» Talvez não seja o suficiente para fundar uma comunidade, um culto ou uma seita proselitista de qualquer ordem. Não parecem ser as notas de alguém minimamente empenhado em transmitir-nos algum tipo de esperança. Mas é, sobretudo, uma convicção de ordem estética, uma margem para se desligar de todo esse desastre de quem nos promete as melhores soluções, os que vivem das medíocres fantasias subordinadas à razão, à lógica, ao bem-comum podem bem ser o pior tipo de canalhas, num momento em que é uma forma de devastação inesperada a única possibilidade de ser feita alguma espécie de justiça neste mundo. Na sua obra ficcional, Ballard não fez outra coisa senão demonstrar como o mundo nos encurralou a tal ponto que só ambicionamos verdadeiramente o colapso, a derrocada das maravilhas deste regime em que nos forçam a viver encerrados como num vedado Jardim das Delícias. «Os últimos relatórios enviados de Las Vegas descreviam uma capital o jogo abandonada parcialmente submersa num gigantesco lago fustigado pelas chuvas. As roletas estavam paradas e as luzes moribundas dos hotéis reflectiam-se nos prados do deserto alagado, ou o fracasso e a humilhação da América vistos no mais feroz dos espelhos.» Seria quase impossível aceitar um paraíso que não vingue de algum modo enquanto a deglutição das ruínas de todo esse resplandecente cenário de progresso que temos diante de nós. «E por toda a parte, carros (…) rodeados de areia, enfileirados a ganhar pó, as suas carroçarias enferrujadas transformadas em caramanchões de flores silvestres que irrompiam de para-brisas desfeitos e os compartimentos dos motores a darem guarida a toda a espécie de roedores do deserto.» Fechamos os olhos, e não é difícil pressentir essa desolação que está inscrita nas coisas, e como em algumas décadas o mundo se verá convertido numa imensa paisagem imemorial e melancólica, com essas cidades defuntas que estão já presentes nas ficções em que nos pomos a contemplar o futuro. Por agora, a publicidade tenta pintar por cima de tudo, mas essa mesma publicidade diz-nos que não pertencemos ao mundo por ela idealizado, e diz-nos também que «quando a vida se submete ao consumo, a morte torna-se uma obra de arte» (Müller). É evidente que o nosso destino é o subterrâneo, e, como se ...
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    3 ore e 47 min
  • O regresso dos percevejos, das Karens e das Tinas. Outra conversa entre os outros dois
    Sep 18 2026
    O diabo daria a sua bênção a esta época, se fosse capaz de abençoar seja o que for. Disto, creio que estamos todos convencidos. Eis-nos de volta ao aperto da mais trocista das molduras, e vamos justificando-nos com uma espécie de compulsão, o voltarmos de cada vez, como se por inércia, caídos em circunstâncias em relação às quais todos se confessam alheios, num ambiente de onde, na verdade, apetece é escapar. Quem sofra maleitas por manter alguma luz acesa na divisão da consciência, anda por aí sentindo-se forçado a tomar parte numa valsa dos suicidas, procurando suportar toda essa farsa, sendo que se podia deitar tudo ao lixo, a começar pelas múmias que vemos triunfar e capturar os lugares de destaque. Num país civilizado teria já rebentado uma guerra civil, nem que fosse para impedir este azucrinante estreitamento da peça, mas como as paixões vitalistas, os grandes arroubos foram descatalogados, tendo-se tão má impressão da vida no geral, sobra esta guerra entre lacaios, entre jagunços, este jogo das cadeiras, e não deixa de ser uma guerra, mas só por poleiros, nem direito a sangue temos, e consegue, assim mesmo, ser ainda mais repugnante, mais desprezível. Há quem tenha memória de outros tempos, quem nos diga que cresceu perto de jovens duros, duros e sensíveis aos períodos de pura desolação, que atacam e tolhem até os espíritos. Aquele tipo também se lembrava de um tempo em que a maior virtude desta espécie traidora era a coragem, a única que tornava muito claro qualquer diferença, a não cedência ao cálculo, e depois também os adeuses… Há um génio na rejeição, o desses tipos que não se deixam confundir nem integrar, perfis cortantes, que adoptam como referência outro período, decoram algum buraco como se estivessem a induzir um transe, impregnando-se da consciência de si mesmos como artefactos desse tempo mais puro e mais honroso, e procuram assim, na expressão de alguém, atravessar a vida «como um rato que atravessa uma píton», um inchaço perceptível na musculatura lisa do resto. Têm em relação a essa históriz do «mundo» a mesma condescendência que se tem face a uma qualquer tendência azucrinante, uma ficção de mau gosto, que, mais tarde ou mais cedo, cederá espaço a outra coisa. E nisto, aquele bruxo ri-se e exclama: «Ah! A miséria do imaginário e do simbólico. O real sempre adiado para amanhã.» No meio deste fúnebre e frívolo carnaval, desde que os poderosos aprenderam a gerir a situação por meio de uma extorsão metodizada que recobriu todos os aspectos da nossa existência, e se ninguém contesta que este tempo soube tem coleccionado um impressionante número de crápulas, ser mau tornou-se uma imperiosa necessidade, sendo evidente que não se sai disto sem uma bulha para os anais, mas, e infelizmente, continuamos a chupar missas, esses figurotes que desfilam por aí os reflexos de um mesmo eixo nervosos amolecido, vindo com uma prédicas, uns tradicionalismos bacocos, umas moralidades que nos rebaixam a todos. Anda aí tudo numas momices, numas poses enfáticas, e assim nos condenam a esse longo suicídio declamatório que não mais terminará, enquanto todos parecem muito confortados com saber o que seja isso do artista, do poeta, estendendo-se por toda a parte o museu de cera, estas figuras embalsamadas na luz de mijo das instituição e enredos do prestígio. Mas de que servem os poetas em tempos de indigência? E não é óbvio? Dos poetas exigir-se que nos seduzissem para um embalo perverso, para as função desmoralizadoras, para nos arrancar aos moldes, a esse desígnio em que se supõe que o ideal é que cada um dos nossos passos possa ser exposto numa montra qualquer, cada atitude ou gesto exibida como exemplar, em vez de provocar perturbação, desordem, indigestão. Num tempo que aniquila todo o carácter interventivo, aos poetas pediríamos que nos amparassem na queda, encorajando o nosso riso sarcástico e agravem os nossos vícios ou as nossas estupefacções, como sugere Cioran. Lê-se as colecção da poesia contemporânea e não se dá por nenhuma maldade profunda, nem sequer aquela leveza dos seres encantados por se terem visto livres da tentação ou do remorso. Os versos que fazem alguma coisa num tempo assim desequilibram-nos, mostram-se maravilhosamente debilitantes… Também se poderá conceder que o papel de outro, de abordagem mais difícil, porque não alinham com as nossas amarguras e obsessões, poderá ser o de trazerem o conflito para um nível mais íntimo, e aparecem quando estamos maduros o suficiente para estarmos já um pouco fartos de nós mesmos, das nossas lamúrias. Estes surgem para salvar-nos das convicção em que nos deixamos engessar, quando essa mania, eminentemente moderna, de protestar e reivindicar parece ter-se tornado a única estratégia para a definição de uma personalidade, e assanhamo-nos com tudo por isso se ter tonado reconfortante. Nessas alturas, ...
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    3 ore e 12 min
  • A flotilha, os refugiados, a Odisseia e o marisco. Uma conversa com Miguel C. Duarte
    Jul 17 2026
    Vulgarizamo-nos ao sermos forçados a explicar de todas as vezes os elementos decisivos das nossas vidas. Abandonada a paixão, limitados a uma frieza racional, de modo a bater certo com os critérios desse espírito mediano, esse que se abstém diariamente de qualquer ímpeto ou febre que possa obrigá-lo a fugir de si mesmo. Que dificuldade em chegar perto daquele lado perverso que torna alguns homens seres quase inenarráveis, por não serem só uma coisa, mas tantas, capazes do melhor e do pior, de acordo com aquilo que as circunstâncias lhes exijam. Como sentimos falta daqueles pesquisadores do impossível, aqueles capazes de o seguirem para lá de todas as coordenadas lógicas, plausíveis, mimando desde sempre uma suspeita ou desdém por ideologias, abstracções, antes guiando-se pela luz estelar das experiências concretas, expressas com um fulgor capaz de renascer de cada vez e a cada boca, e de lançar a sua voz além deste mundo desencantado. Alguns não querem recordar nada que se tenha passado neste mundo que não lhes diga respeito, e do mesmo modo se esquecem que uma “vida verdadeira”, como a ambicionava a criança delirante, está tantas vezes mais perto do insólito, do acidental, dos elementos da catástrofe e até do aberrante do que entre aquilo que é frequente, uniforme e regular. A experiência, nas suas dimensões irracionais, seja sensória, afectiva ou imaginativa, tem o seu próprio enredo de evidências e puxa-nos para um contacto com uma realidade encantadora e selvagem, bem mais rica do que aquelas que nos promete a razão. «De tais poderes ou seres tão grandiosos poderá haver uma sobrevivência concebível… uma sobrevivência de um período extremamente remoto quando a consciência se manifestava, talvez, sob formas e figuras desaparecidas muito antes da maré da evolução humana… formas das quais somente a poesia e a lenda retiveram uma memória esvoaçante e lhes chamaram deuses, monstros, seres míticos de todas as espécies (…)», anotava Algernon Blackwood à cabeceira de Lovecraft. Mas de que nos pode valer hoje esse impulso de entoar os tão antigos versos, buscar essas formas, suplicar encostando tanto quanto possível esta língua ao grego…? «Canta em mim, Musa, e através de mim conta a história/ desse homem hábil em todas as formas de luta,/ o viajante, perseguido durante anos a fio,/ depois de ter saqueado a sagrada cidadela/ erguida no altivo cimo de Tróia»… De que adianta, hoje, quando não acreditamos nas nossas próprias palavras, não as levamos tão a sério que elas sejam o nosso mais incisivo reflexo, a imagem que não se esbate, mas fica na memória dos demais, e ali produz a sua vertigem inesquecível, de que adianta procurarmos como reflexo um rosto vivo, atento, capaz de atravessar igualmente o que foi ou será? O que diz toda esta hesitação sobre os laços e pactos que tentamos forjar? Não seremos hoje meros ladrões de sentido, disputando bagatelas, numa tagarelice de frívolos intriguistas, incapazes de um curso perturbador ou de um gesto altivo, reverente ao mais largo dos tempos, e de um ritmo irado aqui, ali doce, que teça a expansão de um outro mundo? E quanto às palavras, o que ocorre nelas se não captam mais que a flutuação de um instante e se desfazem como areia mal nos deixam a boca? Que deserto se estende no tanto que é dito apenas para adiar a acção? Consumidos pela ironia e o desdém, no terror da nossa perdida inocência, não é verdade que nem sabemos já coser novas e velhas canções, restabelecer o selo quebrado? Meia-noite e meia… é a hora naquele poema de Roger Wolf, em que ele se acha a resvalar para mais outra insónia, dizendo: «e eis-me aqui/ a fumar até que me mate/ em frente a uma tela negra/ suja de manchas/ verdes.// Aí fora, em alguma/ parte, em todas,/ ensaios de cadáver/ arrastam-se até ser manhã/ na esteira de outra/ noite vazia.// Pergunto-me/ o que teria dito/ Homero.» O título do poema é: «Algo mais épico com certeza.» Afundados num tom baixo, até os piores crimes, os efeitos mais letais não deixam nunca de ser reles, resultado de seres que alcançam a infâmia do lado da sordidez, e que lamuriosos então ainda são eles... E não escapamos a esse gemido literário de obras que vão saindo em série de um vazio de experiência que nada tem a ver com a altissonante grandeza daquilo que nos é narrado nos relatos da antiguidade. É evidente que um Homero, hoje, servir-se-ia de outras linguagens, e o mais certo é que quisesse dominar a arte que a todas as pudesse coser num fôlego assombroso: do sopro e do ínfimo detalhe até à torrente avassaladora, da menor à mais desafiadora das escalas, devolvendo-nos à intimidade de heróis com e sem aspas, às suas contendas num mundo cheio de deuses. Foi isso o que Nolan conseguiu com a sua tradução. Ao recompor nos nossos dias a grande tradição épica, fá-la reflectir uma época que se reconhece nas palavras de...
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    4 ore e 12 min
  • Os trânsfugas da ficção lusa. Uma conversa com Filipa Martins
    Jul 11 2026
    Certa vez, Cabrera Infante deu-se a oportunidade de passar algumas horas na presença do seu mito encarnado, esse ídolo que, depois de tanto nos instigar, vai cedendo com o passar dos anos à pressão, e revela as suas falhas, fendas. Assim, com o fito de fazer uma reportagem, este soberbo escritor cubano passou um dia inteiro com Hemingway a bordo do Pilar, o seu célebre iate, pescando ao largo da costa cubana. Muito mais tarde, numa entrevista concedida nos anos noventa, foi interrogado sobre o que lhe revelara essa experiência de proximidade, e se manteve para si o anseio de ser um escritor como Hemingway? A resposta dele veio-lhe numa mistura de blasfémia e mexerico, como quem estivesse a meio de uma abusada e dolorosa refeição, arrancando pedaços de carne aos ossos do próprio pai, cuspindo as partes que já enjoam, e é esta resposta que não admite desperdício: «Queria ser tão famoso como ele. E não porque o seu estilo ou as suas personagens me influenciassem. Era, antes, a sua maneira de viver, a forma como encarava a vida. Embora, naturalmente, com o passar do tempo, ache que ele fez aquilo que os escritores fazem com demasiada frequência. Espanta-me que dedicasse tanto tempo a empreendimentos fúteis. Refiro-me ao ritual de descer todos os dias, às onze da manhã, a Cojímar, subir para o barco e fazer-se ao largo, na Corrente do Golfo, para ver se conseguia apanhar o maior peixe que pudesse existir. Era pura paranóia. Não tinha absolutamente nada a ver com a vida real; tinha tudo a ver com a fantasia. Fui com ele no barco e achei aquilo horrivelmente aborrecido. Das seis da manhã às quatro da tarde, a única coisa que fazia era beber. Embebedava-se de vodka e acabava estendido no convés, incapaz de fazer fosse o que fosse durante o resto do dia, ou quase todo o resto do dia. Depois, de repente, levantava-se outra vez: o efeito da vodka tinha passado e regressava a Cojímar. Se aquilo era um modo de vida, acredite: eu não queria vivê-lo. Ou ir para África matar animais para apanhar uma disenteria medonha e passar dias com diarreia. Ou ir para Espanha atrás de toureiros. Estava verdadeiramente louco, disso não tenho a menor dúvida. E, ao mesmo tempo, vivia numa belíssima casa nos arredores de Havana, onde tinha tudo o que desejava: um pomar de frutas tropicais e uma biblioteca enorme. Ia a Havana ao volante de um Mercury descapotável e almoçava ou bebia no Floridita ou na Zaragozana. Isso não era mau; mas o resto da sua vida foi horrível. Há uma coisa que os escritores fazem muito: perder tempo. Faulkner imaginava-se um cavalheiro do Sul que tinha de caçar raposas todos os sábados. Nesse aspecto, os escritores europeus eram mais profissionais. Não consigo imaginar Joyce a caçar na Irlanda, nem a tentar pescar um espadarte no Canal da Mancha. Levou uma vida muito séria, coerente consigo próprio, com a família e com a sua obra. O único problema de Joyce era a sua atitude distante, a sua imensa vaidade e o facto de ser um bêbedo, como a maioria dos irlandeses. Beber também é uma forma lamentável de perder tempo.» Esta resposta mostra-nos como admiração e entusiasmo acabam por dar origem aos mais impiedosos venenos, neste caso um de sorte moral, em que se censura essa tremenda disponibilidade que faz de um escritor um ser que se passeia assobiando pelos limites, como se Cabrera Infante tivesse desenvolvido uma marca muito particular de ressentimento para os seus fins, não reconhecendo como perder tempo é o elemento crucial de qualquer literatura que não esteja absorvida por essas prioridades injuriosas com que o tempo nos reclama. «Talvez seja bom que o espírito do poeta se deixe penetrar, mais do que afadigar-se para penetrar», assinala Reverdy. Para se chegar a ter a sensação de que o eixo do mundo passa pelos rins de um tipo, como nos sugere Fondane, para sentirmos como alguns são capazes de puxar por essas linhas invisíveis e fazer delas as suas redes, temos de admitir que a literatura se faz com esse risco de desperdiçar dias a fio em troca de um sobressalto, uma cadência que nos lança para o exterior daquilo que habitualmente se encontra nos livros, resistindo à tentação de nos fornecer outros simulacros. Há um excesso de talentos afinados pela percepção daquilo que a época nos exige, mas, se queremos superar este modo de mendigar a nossa própria vida, ainda vamos ter de nos adiantar a nós próprios, evoluir descosendo o forro das nossas circunstâncias, atravessar essa tradição dos oprimidos, aprender alguma coisa com os danados, e chegar ao ponto de termos visto as vezes suficientes o filme todo, imagens sucessivas ardendo até que a retina seja forçada a refazer-se das suas cinzas, já difusa e indistinta nas margens, podendo ser útil essa investigação e velocidade sustida daquilo que preenche a escuridão de uma época como de uma sala, esse filme projectado num cinema e que, pelo seu carácter denso e absoluto, ...
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  • O artista contemporâneo, esse activista financeiro. Uma conversa com António Pinto Ribeiro
    Jul 4 2026
    No início dos seus manuscritos, de 1844, Marx escreve qualquer coisa como «o meu próximo é o dinheiro», e o poeta francês Christophe Hanna admite que esta declaração pode ser entendida como uma indiciação de que o dinheiro determina as nossas vidas num tal grau que não nos livramos de qualificar os outros e a relação que com eles estabelecemos a partir da fortuna que lhes atribuímos. No fundo o dinheiro actua como um «capcioso parasita» (António Vieira) capaz de conduzir o hospedeiro a seu bel-prazer. Este parasita que se apropriou inteiramente dos destinos das sociedades pós-históricas, alcançou esse efeito prodigioso, diz-nos Vieira, ao infiltrar-se em todas as esferas do espaço humano, desenvolvendo um parasitismo de alta virulência: «fazendo-se desejar sem limite, inverte os papéis e põe a sociedade ao seu serviço até fazer perigar a sobrevivência do hospedeiro.» A narcose que este gera é tão profunda, que tudo se submete às suas leis, e ele deforma a própria realidade física através do homem, que se torna o agente dessa força viral. Como um astro negro, este irradia subtilmente a sua promessa que acaba por dominar o curso do mundo. Borges notou que «nada há de menos material do que o dinheiro, pois qualquer moeda (uma moeda de vinte cêntimos, digamos) é, em rigor, um repertório de futuros possíveis». Mas esse tempo futuro não nos pertence, na verdade os homens não são ricos, tanto como se tornam seres possuídos pelo dinheiro. O dinheiro é uma função que transtorna inteiramente a razão moral de um ser ao ver-se capturado pela sua influência, por essa excepção que nos desintegra sucessivamente até levar a um desinvestimento de todos os afectos e ligações, e desse desejo de autonomia, de liberdade, a qual não existe a não ser enquanto luta com o seu contrário. A adesão significa uma perda de si, uma diluição, enquanto o homem se cinge aos fins do próprio dinheiro, que visa a multiplicação, e que determina que toda a coisa, todo o bem, todos os seres, no esforço de se realizarem no mercado, passem a definir-se apenas segundo essa necessidade de competir com todas as outras mercadorias. Como nos diz Huysmans, «o dinheiro atrai-se a si próprio, procura aglomerar-se nos mesmos locais, vai de preferência parar aos celerados e aos medíocres; e depois, quando uma inescrutável excepção o leva a acumular-se num rico de alma não criminosa nem abjecta, permanece estéril, incapaz de se converter num bem inteligente, e entre mãos caridosas nem mesmo é apto a alcançar um fim elevado. Dir-se-ia que vinga assim o seu destino falso, se paralisa voluntariamente quando não pertence ao último dos trapaceiros nem ao mais repelente dos malandros.» A forma como o dinheiro se impõe passa desde logo por submeter a si o tempo e todas as funções cronológicas, de modo a neutralizar o Kairós, essa capacidade de ler no inesperado, de se aproveitar do acaso na forma como este procura corroer os enredos coercivos que visam tornar-nos meros espectadores passivos das nossas próprias vidas, existências paralisadas. O triunfo do capital significa essa redundância absoluta, num encadeamento que conduz ao fenómeno do presentismo, esse tempo que se define pela eterna hipnose do presente. Isto faz de nós seres dominados por uma compulsão para refazer o mundo segundo a lógica carcerária que exponencia as dinâmicas preditivas. A nossa época define-se, assim, como um nó temporal, uma sobreposição de tempos assombrados, em que o passado se dissolve nesses ecos ou reflexos comprometidos com o efémero e a contingência, dificultando a capacidade de recuperar as referências e, mergulhando na tradição, reactivar as sobrevivências de outras eras. Nem o futuro aquilo que nos ocupa, mas uma sua projecção que acaba por gerar a impotência, vivendo-se por antecipação apenas na correspondência com um desejo mórbido que se devasta a si mesmo, sendo que as promessas se concatenam e se tornam imediatamente perecíveis. O dinheiro não é, por isso, tão-só um equivalente absoluto, mas ele actua no espírito dos homens produzindo uma metamorfose que os tranca fora dessas cogitações inebriadas pelo tempo longo da história, sendo que em todos os domínios da vida, as obsessões presentistas levam ao colapso temporal, um tempo liso que não permite que nada se sedimente. Daí a tendência desde há algumas décadas para o deperecimento das formas artísticas, uma vez que esta lógica carcerária, mais do que nos confinar no espaço, vulnera-nos ao estarmos mergulhados num ritmo em constante aceleração que impede aquela maturação lenta que sempre esteve na base das principais realizações do espírito, e especificamente na arte que se fez até à modernidade. Hoje, devemos reconhecer como a arte contemporânea mais do que definir um conjunto de práticas que já não correspondem a critérios ou formas estáveis, numa relação tensa com a ...
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