'Brasileiras': editora francesa reedita ciclo histórico de vozes femininas contra a ditadura militar copertina

'Brasileiras': editora francesa reedita ciclo histórico de vozes femininas contra a ditadura militar

'Brasileiras': editora francesa reedita ciclo histórico de vozes femininas contra a ditadura militar

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Em entrevista à RFI, a escritora, professora e curadora de eventos literários Guiomar de Grammont fala sobre Brasileiras, livro publicado originalmente pela icônica Éditions des femmes, na França, a partir de entrevistas realizadas em 1977 por Maryvonne Lapouge-Pettorelli e Clelia Pisa com mulheres brasileiras que viveram, resistiram e pensaram o país sob a ditadura militar. A obra reúne relatos marcados pela afirmação do pensamento feminino, não apenas como um conjunto de memórias, mas como um ato político pautado pela circulação internacional de ideias e pela presença de intelectuais como Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus e Ruth Escobar, entre outras. Ao dar início à conversa, Guiomar de Grammont recoloca “Brasileiras” em seu tempo histórico, destacando a violência estrutural vivida por muitas das entrevistadas. "Trata-se de um período de repressão extrema, quando mulheres eram presas, perseguidas, torturadas e silenciadas pelo regime militar", diz. A diversidade das vozes reunidas por Clelia Pisa e Maryvonne Lapouge-Pettorelli, em 1977, ganha ainda mais peso nesse contexto, segundo a escritora, reunindo mulheres intelectuais, artistas, ativistas políticas e trabalhadoras do campo, "compondo um retrato amplo e profundamente diverso da condição feminina". O livro mostra como experiências tão distintas coexistem, expondo "as múltiplas camadas de opressão que atravessavam o cotidiano das mulheres naquele período, revelando desigualdades de classe, raça, território e acesso à palavra", construindo um mosaico do Brasil feminino raramente visto na narrativa oficial do país. "Bem, as mulheres daquele momento estavam vivendo um contexto duríssimo de repressão, muitas delas estavam sendo feitas prisioneiras, torturadas. E isso foi o que mais ressaltou para mim na diversidade das vozes que foram ouvidas pela Clelia Pisa e Maryvonne Lapouge-Pettorelli", diz Guiomar de Grammont. Ao refletir sobre o sentido de escutar essas mulheres hoje, ela associa a escuta contemporânea à necessidade de resgatar a luta e a resistência presentes nos depoimentos. "A leitura atual cria uma ponte com mulheres que hoje vivem situações de violência e opressão, conectando passado e presente em um gesto político de memória e solidariedade", diz Grammont. "As experiências narradas", diz a pesquisadora e programadora que assina o prefácio desta reedição, que será lançada em 19 de fevereiro de 2026, "ecoam em mulheres palestinas, ucranianas, brasileiras de favelas e das comunidades populares". Para Guiomar de Grammont, a reedição do livro tem potencial para tocar leitoras de hoje, mais conscientes e atravessadas por transformações culturais profundas, mantendo uma conexão direta com as mulheres que viveram antes dos anos 1980. "Eu sinto, assim, um desejo de resgate dessa luta, sabe? Um desejo de resgate dessa resistência, com desejo de estar próxima da mulher palestina, da mulher ucraniana, da mulher da favela brasileira, da comunidade. E é assim que eu espero que a reedição desse livro venha a tocar também as leitoras de hoje, que já são leitoras mais conscientes, que já viveram a revolução cultural, mas há uma conexão profunda entre essas mulheres desse tempo que antecedia os anos 1980 e nós", completa ela. Escuta como ato político A ideia de convergência de lutas aparece como uma chave de leitura central. Muito antes de o termo se consolidar no vocabulário feminista contemporâneo, os depoimentos já articulavam raça, gênero, classe e território de forma inseparável. O livro antecipa debates que hoje ocupam o centro das discussões políticas e culturais no Brasil e fora dele. Guiomar de Grammont observa que, apesar dos avanços, a violência persiste, como mostram assassinatos políticos recentes, como o de Marielle Franco. Mulheres negras e indígenas conquistaram maior protagonismo, mas Brasileiras permite perceber que o poder patriarcal e militar ainda opera de maneira brutal. "É isso mesmo. Houve uma evolução até no sentido de que essas mulheres negras, mulheres indígenas, elas apareceram hoje com muito protagonismo. Mas houve também violências terríveis muito recentes, como o caso Marielle Franco", afirma. Relendo os depoimentos, a escritora se impressiona com a coragem e a autenticidade das entrevistadas. "O contexto da publicação no exterior permitiu que elas falassem com franqueza impossível nos jornais ou artigos no Brasil da época", afirma. Essas mulheres se dirigiam a outras mulheres, "em um espaço seguro criado pelas entrevistadoras". Para Guiomar de Grammont, essa possibilidade de revelar integralmente experiências que não poderiam ser verbalizadas em outros meios constitui a maior contribuição da obra. "Olha, elas foram muito verdadeiras, muito autênticas, de uma coragem extraordinária. Talvez porque estivessem falando para outras mulheres, para um livro que não seria publicado no Brasil. Então, a gente tem que...
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